Você sabe onde você vive? Não falo do endereço, falo do mundo. Sabe o quanto a sua mente pode influenciar a matéria que a cerca? Sabe como uma emoção muda uma decisão, e como uma decisão muda uma vida? E já reparou em como o inesperado, a coincidência que não devia acontecer, parece chegar justamente quando a gente mais precisa?
Este texto é um convite especulativo. Não vou provar nada. Vou contar histórias, algumas documentadas, outras controversas, uma delas minha, e deixar você decidir o que fazer com elas. Mas aviso: no final, você vai encontrar cinco práticas simples. Porque, se existe alguma chance de o mundo colaborar com quem se alinha, vale a pena testar.
“Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa filosofia.” William Shakespeare, Hamlet
O que Jung chamou de psique objetiva
Carl Gustav Jung, o psiquiatra suíço, sustentava que existe uma camada da mente que não é só minha nem só sua. Uma psique objetiva, o inconsciente coletivo, herdada pela espécie inteira, feita de imagens e padrões que ele chamou de arquétipos. Não somos donos dessa camada. Estamos dentro dela, como se estivessem dentro de um campo.
Daqui nasce uma ideia fascinante: certas ideias parecem pairar no ar. Surgem em lugares distantes, em pessoas que nunca se conheceram, quando o momento histórico as convoca. O artista, o cientista e o místico seriam receptores sensíveis, que captam o que já está disponível.
E se a psique é em parte objetiva, o que acontece dentro de nós pode ter eco fora de nós. Jung chamou isso de sincronicidade: uma coincidência significativa entre um estado interior e um evento exterior, ligados pelo sentido e não pela causa. Com o físico Wolfgang Pauli, Nobel de Física, ele imaginou um unus mundus, um mundo único, no qual psique e matéria seriam duas faces da mesma realidade.
O biólogo Rupert Sheldrake foi além, propondo os campos mórficos, e sugeriu que certos padrões, uma vez surgidos, se tornam mais prováveis em qualquer lugar. É hipótese, não fato comprovado, e mesmo assim instiga a imaginação.
“Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro desperta.” Carl Gustav Jung
Quando Jung viu a Terra azul
Em 1944, Jung quebrou o pé e, logo depois, sofreu um infarto. Sob oxigênio e injeções de cânfora, ele viveu o que chamou de visões tremendas. Em Memórias, Sonhos, Reflexões, descreve que se viu no alto do espaço, a cerca de 1.500 quilômetros de altura. Lá embaixo, o globo da Terra, banhado em uma luz azul gloriosa, o mar azul-escuro, os continentes, o Ceilão, a Índia, o contorno azul e prateado do planeta.
Pense nisso. Em 1944, ninguém havia visto a Terra do espaço. Os astronautas, décadas depois, descreveriam algo muito parecido.
Havia ainda um detalhe estranho: o médico dele apareceu na visão como uma imagem arquetípica, e Jung entendeu que aquele homem estava em perigo. O tal doutor morreu de septicemia pouco depois, no dia em que Jung foi autorizado a sentar-se na cama pela primeira vez.
“Somos as abelhas do invisível.” Rainer Maria Rilke
A xícara de Madame Blavatsky
Em 1880, em Simla, na Índia, um grupo de seis pessoas saiu para um piquenique na floresta, entre elas Alfred Sinnett, editor do The Pioneer, o principal jornal da Índia britânica. Um sétimo convidado apareceu de surpresa, e faltou uma xícara. Alguém sugeriu, brincando, que Madame Helena Blavatsky, fundadora da Sociedade Teósofica, a materializasse.
Ela ficou um instante em silêncio, numa conversa mental, segundo o relato, com um dos seus Mestres. Depois apontou um trecho de mato. Ali, entre as raízes e a terra, estavam uma xícara e um pires idênticos ao aparelho que a anfitriã havia levado. Sinnett narrou o episódio em O Mundo Oculto.
A história é controversa. Em 1885 (cinco anos depois), a Sociedade de Pesquisa Psíquica enviou Richard Hodgson à Índia, e o relatório dele concluiu que boa parte dos fenômenos era fraude. Esse relatório foi criticado depois, e a própria sociedade o reconsiderou em 1986. O caso fica em aberto, e talvez seja esse o seu charme.
“Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.” Arthur C. Clarke
O dia em que Napoleon Hill acordou antes da notícia
Segundo Napoleon Hill, em A Lei do Triunfo, ele acordou de madrugada, vestiu-se e saiu para a rua como quem vai celebrar algo, sem saber exatamente o quê. Na rua, encontrou muita gente em festa, e o curioso é que ninguém ali sabia explicar por que tinha acordado com aquela energia e saído de casa. Só mais tarde então ele percebeu que era 11 de novembro de 1918, o dia do armistício que encerrou a Primeira Guerra Mundial, assinado de madrugada e em vigor às 11 horas daquele dia.
Contei como Hill contou. Cada um julgue o quanto de verdade e de ornamento há nessa memória. Mas a pergunta que ela deixa é boa: e se parte de nós sentir antes de saber?
“Resiste-se à invasão dos exércitos, mas não à invasão das ideias.” Victor Hugo
O meu caso: uma pomada no quintal
Eu tinha seis anos, era 1968, e morávamos no bairro do Capão, em Campos dos Goytacazes, no norte do estado do Rio de Janeiro. Meu pai, empreiteiro de obras, trabalhava no Rio e viajaria naquele domingo, às seis da tarde, de Litorina. A Litorina era o trem noturno em que o passageiro dormia a bordo, um trem de luxo para o Rio de Janeiro naquela época, eu me lembro bem, uma viagem fantástica.
Meu pai estava com uma dor forte no pé. Minha mãe e eu estávamos sentados num tronco, sob uma mangueira enorme no quintal, e ela lamentava: se ao menos tivéssemos uma pomada de Hirudoid, mas era domingo e tudo estava fechado, e naquele tempo, naquele bairro, não havia comércio aberto.
Foi então que olhei para os pés dela e vi um pacotinho embrulhado em papel rosa. Perguntei: mãe, o que é isso aí no seu pé? Ela abriu. Era uma caixa de Hirudoid, lacrada, novinha, como se tivesse sido comprada naquele instante. No quintal. Depois de algum tempo, com chuva e sereno, não poderia estar ali daquele jeito: lacrada.
Meu pai usou a pomada e viajou. Minha mãe, hoje com 86 anos, confirma tudo isso numa gravação que guardo como uma prova do que aconteceu. Não sei explicar. Nem vou tentar. Apenas conto o que vivi.
“O mundo nunca passará fome por falta de maravilhas, mas por falta de admiração.” G. K. Chesterton
Viktor Frankl e a profecia do prisioneiro
Já o psiquiatra Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentração, conta em Em Busca de Sentido a história de um companheiro de prisão que sonhou que seria libertado em 30 de março de 1945. Ele acreditava ter ouvido uma voz que lhe anunciava isso. Durante semanas, o homem ficou vigoroso, cheio de esperança.
Mas a data foi chegando e as tropas aliadas não chegavam. A esperança desabou, e junto com ela o corpo. Ele adoeceu, perdeu a consciência em 29 de março e morreu no dia seguinte, a data exata da libertária profecia.
Frankl usava essa história para mostrar o quanto a esperança sustenta o organismo e o quanto a sua perda o fere. Não é uma história de magia. É uma história sobre o poder que damos ao futuro que imaginamos, para o bem e para o mal.
“Quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como.” Friedrich Nietzsche, frase que Viktor Frankl costumava citar
Se o mundo conspira, conspira com quem se move
Se existir a sincronicidade, se existir uma psique objetiva, pode ser que ela colabore. Pode ser que haja uma espécie de conspiração discreta do mundo para quem está alinhado, e que as coincidências não sejam acaso solto. Eu não sei. Acho que você também não. Mas há uma coisa que sabemos:
quem alinha emoções e pensamentos percebe mais oportunidades, decide melhor e persiste mais.
Por isso, o universo, se conspira, conspira junto com o esforço, e não no lugar dele. Frankl mostrou o lado sombrio disso. Vale buscar o lado luminoso.
Há uma pesquisa que merece atenção aqui. A psicóloga Gabriele Oettingen, da Universidade de Nova York, descobriu que apenas fantasiar com o sucesso pode até diminuir a energia para agir. O que funciona é imaginar o futuro desejado e, em seguida, olhar de frente para o obstáculo real, criando um plano. Os protocolos abaixo combinam essa ideia com práticas que o próprio Sheldrake descreve no livro Science and Spiritual Practices, onde ele reúne pesquisas sobre meditação, gratidão, contato com a natureza, rituais e canto, entre outras. Cada protocolo é diferente do outro, e você pode começar por aquele que mais combina com você.
“A alma se tinge com a cor dos seus pensamentos.” Marco Aurélio
Cinco protocolos para criar sintonia emocional e prospecção de futuro
Protocolo 1: Silêncio de dez minutos (meditação). Sente-se em um lugar tranquilo, feche os olhos e acompanhe apenas a respiração. Quando a mente se distrair, e ela vai se distrair, volte ao ar que entra e sai, sem se criticar. No último minuto, faça uma única pergunta sobre o seu futuro e apenas escute, sem forçar nenhuma resposta. Repita por sete dias seguidos.
Protocolo 2: Gratidão que circula. Toda noite, escreva três coisas pelas quais você é grato naquele dia, incluindo uma pequena que passaria despercebida. Uma vez por semana, agradeça diretamente a uma pessoa, pessoalmente ou por mensagem, dizendo o que ela fez e o que isso provocou em você. A gratidão dita a alguém costuma mudar o clima de quem agradece e de quem recebe.
Protocolo 3: Quinze minutos de natureza e plantas. Sem celular, vá a um jardim, uma praça, um quintal ou a beira de um rio. Caminhe devagar, descalço se for seguro, e escolha uma planta para observar de perto: a forma das folhas, a cor, o cheiro. Se puder, cuide de uma planta em casa, regando sempre na mesma hora. Ao terminar, perceba como está o seu corpo em comparação com o começo.
Protocolo 4: Cantar ou entoar por cinco minutos. Escolha uma música que lhe traga força ou esperança, ou simplesmente entoe um som prolongado, como um mantra ou um hino de que goste. Cante em voz alta, sozinho ou, melhor ainda, com outras pessoas. Cantar envolve respiração, voz e emoção ao mesmo tempo, e costuma mudar o estado de ânimo em pouco tempo.
Protocolo 5: Ritual semanal de intenção. Escolha um dia e uma hora fixos e prepare um lugar simples, com uma vela acesa, por exemplo. Escreva em até seis palavras o que você quer criar naquela semana e imagine por um minuto a cena já realizada. Depois, nomeie o principal obstáculo interno e termine com uma frase: se tal obstáculo aparecer, então farei tal ação pequena. Feche o ritual com um gesto, como apagar a vela. Repetir sempre no mesmo formato dá ao desejo um lugar no calendário.
Se o mundo é mágico, ele não se oporá a que você teste. E se não for, você terá construído, com clareza, emoção e ação, um futuro melhor do que o que teria sem tentar.
“Uma jornada de mil milhas começa com um único passo.” Lao Tsé
Referências
CHESTERTON, G. K. Tremendous trifles. London: Methuen, 1909.
CLARKE, Arthur C. Profiles of the future: an inquiry into the limits of the possible. Ed. rev. New York: Harper & Row, 1973.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 38. ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2015.
HILL, Napoleon. The law of success in sixteen lessons. Meriden: Ralston University Press, 1928.
HODGSON, Richard. Report of the committee appointed to investigate phenomena connected with the Theosophical Society. Proceedings of the Society for Psychical Research, London, v. 3, p. 201-400, 1885.
HUGO, Victor. Histoire d’un crime. Paris: Calmann-Lévy, 1877.
JUNG, Carl Gustav. [Carta]. Destinatário: Fanny Bowditch. 1916.
JUNG, Carl Gustav. Erinnerungen, Träume, Gedanken. Aufgezeichnet und herausgegeben von Aniela Jaffé. Zürich: Rascher, 1962.
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LAO TSÉ. Tao Te Ching. Tradução de [tradutor]. [Local]: [editora], [ano]. Cap. 64.
MARCO AURÉLIO. Meditações. Tradução de [tradutor]. [Local]: [editora], [ano]. Livro V, 16.
NIETZSCHE, Friedrich. Götzen-Dämmerung: oder, wie man mit dem Hammer philosophirt. Leipzig: C. G. Naumann, 1889.
OETTINGEN, Gabriele. Rethinking positive thinking: inside the new science of motivation. New York: Current, 2014.
RILKE, Rainer Maria. [Carta]. Destinatário: Witold Hulewicz. 1925.
SHAKESPEARE, William. Hamlet, príncipe da Dinamarca. Tradução de [tradutor]. [Local]: [editora], [ano]. Ato 1, cena 5.
SHELDRAKE, Rupert. A new science of life: the hypothesis of formative causation. London: Blond & Briggs, 1981.
SHELDRAKE, Rupert. Science and spiritual practices: reconnecting through direct experience. London: Coronet, 2017. (A Ciência da Prática Espiritual: Experiências Transformadoras, seus Efeitos e Eficácia em Nosso Corpo, no Cérebro e na Saúde, Cultrix, 2021)
SINNETT, Alfred P. The occult world. London: Trübner, 1881.
Prof. Dr. João Oliveira Psicólogo — CRP 05/32031 ISEC — Instituto de Psicologia Ser e Crescer
Se este texto trouxe à tona lembranças de coincidências que marcaram a sua vida, intuições que se confirmaram ou momentos em que você sentiu que algo maior se movia a seu favor, e você deseja conversar comigo sobre essas experiências e compreender como elas têm influenciado as suas decisões e o futuro que você quer construir, podemos começar por uma sessão inicial telepresencial de alinhamento.
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