Na noite da apuração, a televisão permanece ligada, o celular não para de receber mensagens e cada atualização parece carregar muito mais do que alguns números. Em uma casa, há comemoração. Em outra, silêncio. Nos grupos digitais, pessoas que se conhecem há anos jogam fora a amizade em poucas linhas. Uma escolha política começa a ser vivida como veredito moral:
de um lado, os que acreditam ter protegido o futuro; de outro, os que sentem que o futuro lhes foi retirado.
Em períodos eleitorais intensamente polarizados, não se disputa apenas um programa de governo. Disputam-se segurança, pertencimento, memória, identidade e esperança. Para muita gente, a vitória do outro grupo não significa apenas perder uma eleição, mas correr o risco de perder direitos, estabilidade, reconhecimento ou proteção.
E é nesse ponto que a divergência legítima pode adquirir a forma psicológica da ameaça.
Se a democracia nasceu para organizar interesses diferentes, em que momento essa diferença se transforma em dominação, medo e hostilidade?
Pode ser que o erro não esteja na democracia em si, tampouco no fato de as pessoas desejarem coisas distintas. O erro, podemos supor, deve estar na expectativa de que a urna, sozinha, seja capaz de transformar dependência em liberdade, vulnerabilidade em autonomia e maioria eleitoral em justiça. O voto iguala juridicamente a manifestação de cada cidadão.
Não iguala, porém, as condições materiais, emocionais e sociais com que cada pessoa chega à decisão.
QUANDO O POVO ENTROU NA PRAÇA
A imagem fundadora da democracia é a praça. Na Atenas dos séculos V e IV antes da era comum, cidadãos participavam diretamente de assembleias, julgamentos e decisões públicas. A política deixava de ser apenas um assunto reservado ao palácio e passava a exigir presença, palavra, debate e responsabilidade coletiva.
O poder encontrava um novo lugar: o espaço em que aqueles reconhecidos como cidadãos poderiam deliberar sobre a vida comum.
Essa origem contém um avanço extraordinário e uma contradição igualmente importante. O povo que entrou na praça não correspondia a toda a população. Mulheres, estrangeiros residentes, pessoas escravizadas e outros habitantes permaneciam fora da cidadania política.
Como mostra a síntese de Fred D. Miller Jr. sobre a teoria política de Aristóteles, a cidadania estava ligada à possibilidade de participar das funções deliberativas e judiciais, mas essa participação se realizava dentro de fronteiras restritas de pertencimento.
A democracia, portanto, nasceu ampliando a participação e, ao mesmo tempo, decidindo quem poderia participar. Essa tensão atravessaria toda a sua história. Os séculos seguintes não eliminariam a pergunta ateniense; apenas a tornariam mais extensa:
- quem é reconhecido como parte do povo?
- Quem pode falar?
- Quem tem condições reais de ser ouvido?
- Quem possui tempo, segurança e instrução para participar?
- Quem aparece apenas como número, mas continua distante das decisões?
O ideal democrático não deve ser descartado porque começou incompleto. Ele precisa ser julgado pela sua capacidade de ampliar continuamente o círculo da cidadania. Quando grupos antes excluídos conquistam voz, a democracia não se desvia de sua origem: corrige o limite que a acompanhava desde a praça.
“A base de um Estado democrático é a liberdade.” — Aristóteles, Política, Livro VI
A DEMOCRACIA NUNCA PROMETEU INTERESSES IGUAIS
Há uma fantasia recorrente de que uma democracia funcionaria bem se as pessoas pensassem de modo semelhante, partilhassem as mesmas prioridades e desejassem o mesmo futuro. Mas uma sociedade assim não seria uma democracia madura.
Seria uma sociedade sem pluralidade — ou uma sociedade em que as diferenças foram silenciadas.
No ensaio número 10 de O Federalista, publicado em 1787, James Madisontratou as facções como consequência inevitável da liberdade, da falibilidade humana e da diversidade de interesses. Pessoas possuem crenças, propriedades, profissões, histórias e expectativas diferentes. Formam grupos, constroem lealdades e disputam influência.
Eliminar completamente as facções exigiria destruir a liberdade que as torna possíveis ou impor a todos as mesmas opiniões e os mesmos interesses. Para Madison, ambos os caminhos seriam impraticáveis ou piores do que o problema.
A tarefa democrática não consiste em abolir o conflito, mas em impedir que uma força social, política ou econômica transforme sua vantagem momentânea em domínio permanente.
- Eleições,
- separação de poderes,
- direitos fundamentais,
- imprensa livre,
- regras de alternância e
- mecanismos de controle
Existem porque o desacordo faz parte da vida coletiva.
São formas institucionais de permitir que o conflito aconteça sem que o vencedor possa eliminar a voz, os direitos ou a existência política dos vencidos.
Claro que existe, naturalmente, um lado produtivo na polarização. Ela pode mobilizar pessoas antes indiferentes, tornar injustiças visíveis e obrigar a sociedade a enfrentar conflitos que estavam apenas encobertos.
O problema tem lugar quando a divergência deixa de organizar alternativas e passa a negar legitimidade:
– Meu grupo já não deseja apenas vencer o seu;
Agora, um dos lados, passa a acreditar que o seu grupo não deveria ter o direito de existir politicamente.
A democracia jamais prometeu que todos teriam interesses iguais. Prometeu algo mais difícil: a construção de regras comuns entre pessoas que não desejam as mesmas coisas.
“A liberdade está para a facção como o ar está para o fogo.” — James Madison, O Federalista nº 10
O VOTO É LIVRE QUANDO A VIDA NÃO É?
Na cabine eleitoral, os votos possuem o mesmo valor jurídico. Fora dela, os eleitores vivem sob condições profundamente diferentes.
- Uma pessoa decide pensando no futuro de longo prazo;
- Outra precisa saber se terá alimento, medicamento, emprego ou segurança na semana seguinte.
- Uma pode votar porque perdeu uma discussão política.
- Outra acredita que poderá perder a única proteção concreta de que dispõe.
Isso não significa que pessoas em situação de vulnerabilidade sejam menos racionais ou incapazes de decidir.
A necessidade material não apaga a agência. Ela reorganiza prioridades, estreita alternativas e aumenta o custo de determinados riscos. Quem vive perto do limite não pode tratar a política apenas como debate abstrato, porque uma decisão administrativa pode atingir diretamente sua sobrevivência.
A Pesquisa da OCDE sobre os Determinantes da Confiança nas Instituições Públicas, baseada em dados de 2023 de 30 países, ajuda a compreender essa diferença. Entre as pessoas que afirmavam ter voz no que o governo faz, 69% declaravam confiança alta ou moderada no governo nacional. Entre aquelas que sentiam não possuir voz, a proporção era de 22%. A mesma pesquisa encontrou confiança menor entre quem estava preocupado com o próprio futuro financeiro: 35%, diante de 52% entre os menos preocupados.
Esses números mostram associações, não uma cadeia causal universal. Ainda assim, revelam uma questão essencial: segurança econômica, percepção de voz e confiança institucional caminham juntas na experiência política de muitas pessoas. A liberdade formal de escolher não garante, por si, a sensação de que a escolha pode ser feita sem medo, coerção indireta ou desamparo.
É justamente nessa distância que a liberdade pode ser manipulada.
Não necessariamente por uma ordem explícita, mas sim pela mensagem de que toda proteção depende da permanência de uma pessoa ou de um grupo no poder. Quando o cidadão teme que a alternância política possa retirar-lhe as condições mínimas de existência, o voto continua legalmente livre, mas passa a ser psicologicamente cercado pela necessidade: não porque o eleitor tenha perdido a capacidade de decidir, e sim porque suas alternativas se estreitaram e o preço do risco aumentou.
“A liberdade contra o medo está eternamente ligada à liberdade contra a necessidade.” — Franklin D. Roosevelt, Mensagem ao Congresso de 1944
DIREITO NÃO É FAVOR
Aqui é necessário fazer uma distinção decisiva. Política social não é sinônimo de manipulação eleitoral. Votar em quem criou, preservou ou ampliou uma política pública pode ser uma escolha legítima e racional. Pessoas avaliam governos também pelos efeitos concretos que produzem em suas vidas.
O problema não está no direito social, mas na transformação do direito em dívida pessoal.
Um direito possui critérios conhecidos, procedimentos verificáveis e continuidade institucional. Não depende da gratidão ao governante, da intermediação de um cabo eleitoral ou da fidelidade a um partido. O favor, ao contrário, é apresentado como concessão de alguém que pode retirá-lo.
Em vez de cidadão, produz devedor. Em vez de segurança, oferece proteção condicionada.
O estudo de Anderson Frey sobre o Bolsa Família no Brasiloferece uma evidência importante contra explicações simplistas. Empregando um desenho de regressão descontínua e uma estratégia baseada na cobertura do programa, o pesquisador encontrou que transferências protegidas da influência de intermediários locais reduziram a vantagem eleitoral de prefeitos, aumentaram a competição e a qualidade das candidaturas, enfraqueceram partidos clientelistas e estimularam gastos redistributivos.
O alcance do estudo está ligado ao seu desenho e ao contexto investigado, mas sua conclusão central é valiosa:
quando a proteção social é impessoal, previsível e menos dependente do controle local, ela pode reduzir — e não ampliar — o clientelismo.
Por isso, a defesa da autonomia política não exige retirar proteção de quem precisa. Exige retirar do agente político a possibilidade de se apresentar como proprietário dessa proteção. Saúde, segurança, renda mínima e educação não são presentes concedidos por uma liderança generosa. São formas pelas quais a comunidade política reconhece dignidade e cidadania.
É nos pequenos lugares da vida cotidiana — no bairro, na escola, no trabalho, no posto de saúde — que um direito precisa deixar de ser uma promessa e adquirir significado concreto. E é ali também que se percebe se ele pertence verdadeiramente ao cidadão ou continua preso à vontade de quem governa.
Se um direito pode ser retirado como punição política, ele ainda é um direito ou já se tornou instrumento de obediência?
“Se esses direitos não tiverem significado ali, terão pouco significado em qualquer lugar.” — Eleanor Roosevelt, pronunciamento nas Nações Unidas, 27 mar. 1958
QUANDO O ADVERSÁRIO VIRA AMEAÇA
O conflito político adquire outra intensidade quando entra no campo da identidade. Já não discutimos apenas impostos, programas sociais, educação, segurança ou relações internacionais. Passamos a discutir quem somos, a que grupo pertencemos e que tipo de pessoa acreditamos ser. Nesse terreno, mudar de opinião pode ser sentido como traição, e reconhecer um acerto do adversário pode parecer uma ameaça ao próprio pertencimento.
A polarização ideológica diz respeito à distância entre posições sobre questões públicas.
A polarização afetiva aparece quando essa distância se converte em antipatia, desconfiança e hostilidade contra as pessoas do outro grupo. No Brasil, Mario Fuks e Pedro Henrique Marques encontraram crescimento predominantemente afetivo e personalista entre 2002 e 2019, mais visível em 2018 e concentrado entre pessoas politicamente engajadas.
Outras pesquisas brasileiras impedem uma leitura apressada. Pablo Ortellado, Marcio Moretto Ribeiro e Leonardo Zeineidentificaram polarização em certos temas e identidades, mas não um alinhamento ideológico geral e uniforme de toda a população.
Com dados eleitorais brasileiros de 2014 e 2018 e um levantamento independente com 1.732 participantes, João Arealmostrou a força das identidades negativas: muitas vezes, o vínculo político se organiza menos pelo entusiasmo com “os nossos” do que pela rejeição intensa a “eles”.
A polarização brasileira, portanto, não cabe na imagem simples de duas metades perfeitamente coerentes.
Esse processo ajuda a compreender demandas psicológicas que podem se intensificar em períodos eleitorais. A incerteza pode alimentar vigilância constante, ruminação, irritabilidade, consumo compulsivo de notícias, dificuldade de dormir e conflitos familiares. Não se trata de diagnosticar uma sociedade inteira, nem de classificar toda emoção política como irracional.
Medo, indignação e esperança podem corresponder a ameaças, perdas e valores reais. O sofrimento aumenta quando a mente passa a tratar toda informação como sinal de perigo e todo interlocutor como representante de um inimigo.
Em um questionário online respondido por 311 pessoas no primeiro ano do governo Bolsonaro, Mario da Cruz Gloria Filho e João Gabriel Nunes Modesto encontraram associação negativa entre polarização afetiva e bem-estar subjetivo, com declínio observado entre respondentes de esquerda. A amostra não probabilística e o período específico impedem generalizar o resultado para todo o país ou para 2026. A pesquisa não oferece um diagnóstico nacional; indica uma relação que merece atenção clínica e social.
Dados estrangeiros servem como comparação, não como medida direta do Brasil. Em levantamento online da American Psychological Association e da Harris Pollcom 3.305 adultos dos Estados Unidos, realizado em agosto de 2024, 69% classificaram a eleição como fonte significativa de estresse, e 32% relataram tensão familiar associada ao ambiente político.
Outro estudo observacional, com 2.752 residentes dos Estados Unidos, relacionou maior distância política percebida a piores indicadores de saúde autorrelatada. Nenhum desses achados demonstra causalidade ou pode ser transportado numericamente para a realidade brasileira. Eles mostram, porém, que …
a polarização pode atravessar o debate público e alcançar vínculos, rotinas e percepção de saúde.
Vale fazer uma observação pessoal, sem transformá-la em teste: você ainda consegue avaliar uma proposta antes de descobrir quem a formulou?
Se a mesma ideia parece sensata na voz do seu grupo e absurda na voz do grupo adversário, talvez a identidade já esteja decidindo antes da reflexão.
Epicteto lembrava que nossos juízos participam da forma como experimentamos os acontecimentos. Isso não quer dizer que ameaças políticas sejam imaginárias ou que a ansiedade seja culpa de quem sofre. Mas, pode significar que, entre o fato e a resposta, existem interpretações, memórias, expectativas e mensagens coletivas disputando o sentido da realidade.
“Os homens são perturbados não pelas coisas, mas pelas opiniões que formam sobre elas.” — Epicteto, Manual, §5
UM PAÍS ENTRE DOIS POLOS
O primeiro turno presidencial brasileiro de 2026 produziu uma imagem poderosa: os dois candidatos mais votados receberam 47,03% e 45,16% dos votos válidos. Juntos, concentraram 92,19%. É compreensível que se descreva o país como dividido ao meio.
Os números mostram, de fato, uma disputa eleitoral fortemente concentrada em dois polos.
Mas uma eleição não é uma tomografia completa da sociedade.
O resultado não demonstra que existam duas metades humanas homogêneas, internamente coesas e radicalmente incompatíveis. Dentro de cada campo há votos por
- identificação,
- rejeição,
- cálculo econômico,
- defesa de direitos,
- tradição familiar,
- avaliação de governo,
- medo, esperança ou ausência de alternativa percebida.
Há também eleitores pouco engajados, pessoas que mudam de posição, abstenções, votos brancos e nulos e cidadãos que compartilham opiniões atribuídas aos dois lados.
As pesquisas brasileiras de Fuks e Marques, Ortellado e colaboradores e Arealajudam a evitar esse erro de interpretação. Elas indicam que a polarização pode ser mais afetiva e personalista do que ideologicamente coerente, além de se concentrar com maior intensidade entre os mais envolvidos politicamente.
Isso torna a situação menos simples, não menos preocupante.
Pessoas podem divergir menos sobre políticas concretas do que imaginam e, ainda assim, nutrir forte hostilidade umas pelas outras.
A tela do celular ocupa hoje parte do lugar simbólico que a praça já ocupou.
Ali se reúnem grupos, circulam discursos, formam-se alianças e aplicam-se punições sociais. A comparação é uma analogia, não uma explicação causal. A tecnologia não inventou o conflito humano. Contudo, quando cada grupo passa a consumir principalmente as caricaturas produzidas sobre o outro, a divergência perde complexidade.
O adversário deixa de ser alguém com razões que precisam ser compreendidas e se torna uma categoria pronta, contra a qual qualquer reação parece autorizada.
O Brasil pode estar eleitoralmente organizado em dois grandes polos sem estar condenado a duas realidades incomunicáveis. Para atravessar esse momento, não basta pedir moderação de forma genérica. Se faz necessário recuperar a capacidade de ouvir o argumento oposto em sua versão mais consistente, reconhecer fatos que contrariem o próprio grupo e estabelecer limites comuns que nenhum vencedor possa violar.
“Quem conhece apenas o próprio lado da questão conhece pouco sobre ela.” — John Stuart Mill, Sobre a Liberdade, capítulo II
ONDE A DEMOCRACIA RESPIRA MELHOR
Se a diversidade de interesses é inevitável, por que algumas democracias administram melhor seus conflitos? A resposta não parece estar na existência de povos naturalmente mais razoáveis, homogêneos ou civilizados. Está na qualidade das instituições que tornam o poder previsível, limitado e responsável.
Nelas, uma derrota eleitoral não pode significar a perda da condição de cidadão.
O relatório The Global State of Democracy 2025, do International IDEA, avalia a democracia por representação, direitos, Estado de Direito e participação. Com dados de 2024, colocou Dinamarca e Noruega entre os países de melhor desempenho em representação; a Dinamarca liderou Estado de Direito e participação. Costa Rica também apareceu entre os melhores resultados em representação, e o Uruguai alcançou a quarta posição em participação. Os exemplos latino-americanos importam porque mostram que bons resultados democráticos não são uma exclusividade nórdica.
O Rule of Law Index 2025, elaborado a partir de mais de 215 mil pesquisas domiciliares e 4.100 levantamentos com profissionais e especialistas, colocou Dinamarca, Noruega, Finlândia, Suécia e Nova Zelândia nas primeiras posições do Estado de Direito. Em um estudo específico sobre a Noruega, a OCDE registrou confiança de 77% no governo em 2021, diante de uma média de 47% entre os países da organização.
Esses números não são certificados morais. Países bem posicionados continuam enfrentando desigualdades, disputas migratórias, radicalização, crises econômicas e possíveis regressões; cada índice também escolhe suas próprias dimensões e métodos. Ainda assim, o conjunto aponta uma direção: democracias respiram melhor quando os direitos não oscilam a cada eleição, a lei alcança governantes, os serviços públicos não são favores, a oposição conserva legitimidade, a participação ultrapassa o dia do voto e o cidadão acredita que possui voz.
Elas não funcionam porque seus habitantes desejam as mesmas coisas.
Funcionam melhor porque a derrota não significa perder a condição de cidadão, e a vitória não concede propriedade sobre o Estado.
A previsibilidade institucional reduz a necessidade de viver cada eleição como batalha final. Quando saúde, educação, segurança e proteção social não dependem da fidelidade pessoal a um governante, a alternância deixa de ameaçar a sobrevivência imediata e pode voltar a ser o que deveria: parte regular da vida democrática.
Amartya Sen contestou a ideia de que populações pobres deveriam esperar pela prosperidade antes de receber direitos políticos. A democracia não é um prêmio reservado a sociedades que já resolveram suas necessidades; voz, informação e participação também são instrumentos para enfrentá-las.
“A democracia não é um luxo que possa esperar pela chegada da prosperidade geral.” — Amartya Sen, “Democracy as a Universal Value”
O VERDADEIRO ERRO
Se não houvesse divergência, escolha ou possibilidade de alternância, o nome democracia perderia o sentido. O verdadeiro erro é acreditar que o procedimento eleitoral basta, mesmo quando as condições de participação permanecem profundamente desiguais.
A urna oferece igualdade jurídica ao voto, mas não neutraliza o medo de perder renda, atendimento, segurança ou pertencimento.
- Não impede que um direito seja apresentado como favor.
- Não protege, sozinha, o adversário contra a desumanização.
- Não ensina a uma família a discordar sem romper vínculos.
- Não obriga o vencedor a reconhecer limites nem garante que o vencido aceite a legitimidade da alternância.
Uma democracia substantiva precisa fazer mais.
Precisa assegurar que necessidades primárias sejam atendidas como direitos;
- que o cidadão não dependa da benevolência pessoal de quem ocupa o poder;
- que instituições sejam confiáveis o suficiente para sobreviver às derrotas eleitorais;
- que a informação possa circular sem submissão ao grupo;
- e que a diferença política não retire de ninguém a condição de interlocutor e de ser humano.
Naquela noite de apuração do primeiro turno, enquanto uma parte do país celebra e outra teme, a pergunta não é apenas quem ficou à frente naquela etapa — nem quem vencerá ao fim do processo. É também quais condições permitirão a quem vier a vencer governar sem humilhar os vencidos e aos vencidos reconhecer a legitimidade do resultado sem abrir mão do direito de fiscalizar, criticar e voltar a disputar.
John Dewey compreendia a democracia como uma forma de experiência compartilhada. Essa ideia amplia o horizonte sem dispensar as instituições: votar é indispensável, mas a vida democrática também acontece na maneira como convivemos, comunicamos diferenças e protegemos uns aos outros do uso arbitrário do poder.
A democracia começa na urna, mas só se realiza quando ninguém precisa trocar dignidade por proteção.
“A democracia é mais que governo: é sobretudo vida associada, experiência conjunta e comunicada.” — John Dewey, Democracia e Educação, capítulo VII
E, apenas para recordar:
“Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista; Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista; Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu; E então eles vieram me buscar — e já não havia ninguém para falar por mim.” texto atribuído a Bertolt Brecht
REFERÊNCIAS
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EPICTETO. Enchiridion (Manual). Seção 5. Tradução inglesa de Elizabeth Carter. Internet Classics Archive, s.d. Disponível em: https://classics.mit.edu/Epictetus/epicench.html. Acesso em: 12 out. 2026.
FRASER, Timothy et al. The harmful effects of partisan polarization on health. PNAS Nexus, v. 1, n. 1, art. pgac011, 2022. DOI: https://doi.org/10.1093/pnasnexus/pgac011. Acesso em: 12 out. 2026.
FREY, Anderson. Cash transfers, clientelism, and political enfranchisement: evidence from Brazil. Journal of Public Economics, v. 176, p. 1–17, 2019. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jpubeco.2019.05.002. Acesso em: 12 out. 2026.
FUKS, Mario; MARQUES, Pedro Henrique. Polarização e contexto: medindo e explicando a polarização política no Brasil. Opinião Pública, v. 28, n. 3, p. 560–593, 2022. DOI: https://doi.org/10.1590/1807-01912022283560. Acesso em: 12 out. 2026.
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Prof. Dr. João Oliveira Psicólogo – CRP 05/32031 ISEC – Instituto de Psicologia Ser e Crescer
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