Na década de 1980, li uma crônica que foi muito útil para enfrentar situações difíceis na vida: Das vantagens de ser bobo, de Clarice Lispector. Muito antes de ser psicólogo eu trabalhei um período como corretor de publicidade para rádio de tv, e aquela leitura mudou muito a minha postura, principalmente diante de pessoas que se consideravam absolutas donas da verdade por terem sobrenomes pomposos ou morarem em áreas chiques da cidade.
Publicada no Jornal do Brasil em 12 de setembro de 1970, a crônica apresenta uma provocação sobre a maneira como vivemos. Clarice associa a figura do bobo à disponibilidade para observar, à originalidade e à boa-fé, sem ignorar sua vulnerabilidade.
Parto dessa leitura para pensar nas escolhas que fazemos quando alguém tenta nos diminuir, impor uma verdade ou levar uma pequena vantagem. A experiência profissional que mencionei dá a esse assunto um significado pessoal e quero compartilhar. Afinal, pode ser útil para alguém.
Há uma diferença entre perceber o que está acontecendo e sentir obrigação de demonstrar que percebemos.
Podemos compreender uma situação, avaliar seus custos e escolher até onde vale a pena ir. Essa escolha às vezes parece ingenuidade a quem vê apenas uma parte da história.
Uma pergunta merece acompanhar essa reflexão: o que gastamos tentando garantir que ninguém leve vantagem sobre nós?
“Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida.” Clarice Lispector, Das vantagens de ser bobo, 1970
A pequena cobrança que ocupa o dia inteiro
Imagine a situação. O serviço está quase pronto quando surge uma cobrança que ninguém havia mencionado. A explicação parece improvisada. Você pergunta, escuta e percebe que há alguma coisa sobrando naquela conta.
O valor é pequeno. O aborrecimento começa a crescer.
Você pode pedir esclarecimentos, negociar, recusar o acréscimo. Também pode concluir que procurar outro profissional custará mais, atrasará a entrega e comprometerá algo importante. Decide pagar, confirma que aquele será o valor final e encerra o assunto.
Alguém talvez comente: “Você foi bobo. Eu não deixaria isso acontecer”.
Mas essa pessoa conhece apenas o dinheiro que saiu. Não acompanhou sua avaliação, não sabe o que você precisava resolver nem o que estava esperando por você depois daquele serviço.
Há situações em que aceitamos uma diferença justamente porque a percebemos e conseguimos dimensioná-la. A próxima contratação, por exemplo, poderá ser feita com outra pessoa para evitar esse tipo de confronto.
O problema existe quando precisamos convencer uma plateia imaginária de que ninguém nos fez de bobos. A cobrança era pequena, mas passamos a tarde discutindo, recontamos o episódio no jantar e vamos dormir preparando a resposta que deveríamos ter dado.
Quanto ficou a conta agora?
“Nada na vida é tão importante quanto você pensa que é quando você está pensando a respeito.” Daniel Kahneman, Rápido e devagar, 2012
O campeonato de nunca perder
Essa disposição aparece longe dos balcões. Está na conversa em que corrigimos um detalhe irrelevante, na mensagem que respondemos durante horas e na discussão familiar que continua depois de todos esquecerem o assunto inicial.
Em determinado momento, resolver já não basta. Queremos que o outro reconheça que estávamos certos.
Um sobrenome ou um endereço podem impressionar, mas não tornam um argumento mais consistente. Quando alguém usa o prestígio social para encerrar uma conversa, podemos examinar o que está sendo dito sem aceitar essa hierarquia como prova.
Ouvir com atenção também nos permite escolher a resposta; não exige concordância nem submissão.
O campeonato de nunca perder costuma nascer exatamente onde a medida da reação se perde: na intensidade, no momento ou no motivo errados.
É compreensível desejar reconhecimento, sobretudo quando fomos tratados injustamente. Convém observar, porém, o que fazemos quando ele não vem. Há quem só consiga encerrar um conflito depois de receber uma admissão que o outro talvez nunca ofereça.
Assim, a pessoa que nos contrariou passa a determinar quanto tempo continuaremos envolvidos.
Podemos ter razão e ainda precisar decidir o que fazer com ela.
Alguns sinais ajudam a reconhecer quando isso está acontecendo:
- Você já resolveu a questão prática, mas continua discutindo o episódio.
- Você repete o mesmo argumento esperando uma reação diferente da última vez.
- Você narra a história para terceiros só para ouvir que estava certo.
Antes da próxima resposta, vale perguntar: existe algo concreto que preciso proteger ou estou tentando obrigar alguém a concordar comigo? A resposta ajuda a perceber se ainda estamos cuidando de um problema ou prolongando uma disputa que já perdeu utilidade.
“Qualquer um pode ficar irritado, isso é fácil. Mas irritar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa: isso, certamente, não é fácil.” Aristóteles, Ética a Nicômaco, Livro II
Quem faz cara de bobo nem sempre entendeu pouco
Clarice já advertia, na crônica, contra a confusão entre a figura do bobo e a falta de inteligência. A partir dessa distinção, podemos examinar outra questão: compreender o que acontece e escolher não reagir são coisas distintas de não perceber a situação. Nenhum desses rótulos, aliás, consegue resumir a inteligência de uma pessoa.
Quem permanece quieto pode ter entendido perfeitamente. Talvez esteja observando, escolhendo o momento ou simplesmente poupando uma explicação que não produziria nada.
Também existe o movimento contrário. Pessoas muito espertas fazem cara de bobas para esconder intenções, escapar de responsabilidades ou obter vantagens. Apresentam um acréscimo como distração, uma omissão como esquecimento, uma insistência como inocência.
Por isso, aparência e intenção precisam ser examinadas separadamente.
A fala mansa não garante boa-fé, assim como a ausência de confronto não demonstra falta de discernimento.
Essa distinção nos devolve alguma liberdade. Você pode perceber uma tentativa de vantagem sem anunciar imediatamente tudo o que percebeu. Pode pedir uma informação, deixar a pessoa concluir, decidir com calma.
Nem toda compreensão precisa virar demonstração pública.
“O bobo pensa que é sábio, mas o sábio sabe que é bobo.” William Shakespeare, Como Gostais, Ato V, Cena I
O dinheiro que foi e a escolha que ainda existe
Existe, entretanto, uma armadilha nessa escolha: continuar apenas porque já gastamos demais para desistir.
Em um estudo clássico publicado em 1985, os psicólogos Hal Arkes e Catherine Blumer investigaram o efeito dos custos afundados por meio de situações de decisão e de um experimento de campo envolvendo assinaturas de teatro, com descontos distribuídos aleatoriamente. Pessoas que haviam pago mais por uma assinatura compareceram mais às apresentações nos seis meses seguintes do que aquelas que receberam descontos (ARKES; BLUMER, 1985). O investimento passado influenciava o comportamento posterior.
Esse estudo ajuda a formular uma pergunta prática: estamos escolhendo o que ainda compensa ou tentando justificar o que já gastamos?
No exemplo do prestador, o tempo que você já perdeu não poderá ser recuperado. Já o tempo necessário para contratar outra pessoa faz parte das alternativas que ainda existem.
Três perguntas ajudam a separar o que já foi gasto do que ainda está em jogo:
- O tempo já perdido volta se eu continuar insistindo? (Não.)
- O tempo necessário para negociar ou trocar de profissional ainda pode ser escolhido e eu tenho esse tempo disponível? (Sim ou Não.)
- O que eu deixaria de fazer se prolongasse esta disputa?
A educadora econômica Andrea Caceres-Santamaria, em publicação do Federal Reserve Bank de St. Louis, explica o custo de oportunidade como o valor da melhor alternativa abandonada quando fazemos uma escolha (CACERES-SANTAMARIA, 2019). Esse conceito permite incluir na avaliação aquilo que o prolongamento do conflito nos impediria de fazer.
Pagar um pouco mais pode ser razoável em uma situação e uma péssima decisão em outra. O importante é olhar adiante: o que acontece daqui para a frente se eu aceitar, negociar ou interromper?
“O tempo perdido nunca mais é encontrado.” Benjamin Franklin, Poor Richard’s Almanack, 1747
Sendo bobo demais da conta
Podemos experimentar pequenas mudanças nas situações em que a obrigação de reagir nos custa mais do que ajuda. Elas não garantem a resposta do outro, mas ampliam nossas possibilidades de escolha.
1. Deixe a última palavra passar. Quando os argumentos começam a se repetir, talvez seja possível dizer: “Entendi seu ponto. Continuo pensando diferente, mas podemos encerrar”. Você não precisa acompanhar a conversa até obter concordância. Assuntos importantes podem exigir uma decisão; divergências pequenas frequentemente comportam um ponto final.
2. Dê razão à parte que tem razão. Se alguém mistura uma crítica válida com uma acusação exagerada, reconheça o fato: “Hoje eu me atrasei. Desculpe por ter feito você esperar”. Não é necessário aceitar uma condenação inteira para admitir sua participação. Nas orientações do Gottman Institute para conflitos de casal, esse reconhecimento aparece entre as tentativas de reparação (THE GOTTMAN INSTITUTE, 2022).
3. Faça a pergunta aparentemente boba. Antes de responder ao que imagina ter ouvido, pergunte: “Quando você diz isso, o que está me pedindo?” Ou: “Esse valor cobre exatamente o quê?” Perguntar com interesse real permite esclarecer o assunto. O cuidado está no tom: uma pergunta carregada de ironia pode apenas acrescentar outra provocação.
4. Permita-se não saber. “Não sei. Vou conferir.” Essa resposta pode evitar uma longa defesa de algo sobre o qual você nem tem certeza. Podemos aprender diante de alguém sem transformar a conversa em uma prova de competência. Há discussões que se sustentam porque admitir uma dúvida parece constrangedor demais.
5. Peça uma pausa e combine a volta. “Estou ficando irritado. Vamos conversar depois do jantar?” A pausa precisa ter um sentido compreensível e espaço para retomada. Kerry Lusignan, em orientação publicada pelo Gottman Institute, propõe interromper conversas muito carregadas para recuperar condições de diálogo (LUSIGNAN, 2017). Mas atenção, passar o intervalo ensaiando acusações dificilmente favorece essa recuperação.
6. Dispense a resposta que só serviria para ferir. Você encontrou a frase perfeita e sabe exatamente onde ela vai atingir. Antes de usá-la, considere o que virá depois. Se o objetivo é esclarecer, tente: “Falei de um jeito ruim. Vou explicar novamente”. A reformulação também integra as orientações de reparação do Gottman Institute, desenvolvidas no contexto dos casais.
7. Deixe uma pequena imperfeição em paz. Nem toda história precisa ser interrompida porque alguém confundiu a terça com a quarta-feira. Quando o detalhe não altera o que importa, podemos acompanhar o relato. Pergunte a si mesmo se aquela correção ajuda a conversa. Conviver também envolve permitir que o outro exista sem revisão permanente.
8. Mantenha um “não” tranquilo. “Compreendo sua dificuldade. Hoje não consigo assumir isso.” Você pode ser gentil e sustentar a decisão. Se a pessoa insiste, explique o necessário e observe se há algo novo a considerar. Justificar-se indefinidamente pode transformar um limite já comunicado em uma negociação que você não deseja abrir.
9. Pague um pouco mais para não pagar com o dia. Voltemos à cobrança. Peça a explicação, avalie o valor e compare as alternativas reais. Se concluir que encerrar compensa, confirme: “Então esse é o valor final para concluir o combinado?” Sua decisão deve considerar o que ainda pode acontecer, inclusive o risco de novos acréscimos.
“O maior remédio contra a ira é o adiamento.” Sêneca, Sobre a ira, 2014
O que merece uma disputa
Há situações que pedem posicionamento firme: prejuízos relevantes, compromissos descumpridos, desrespeito recorrente. A tranquilidade também depende da nossa capacidade de defender o que importa.
O desafio é distinguir esses momentos daqueles em que estamos apenas tentando provar que percebemos tudo.
Talvez o prestador de serviço da nossa cena nunca saiba quanto você compreendeu. Talvez interprete seu pagamento como distração. Você não controla essa leitura. Pode, entretanto, decidir quanto mais deseja investir para corrigi-la.
Ao encerrar o serviço, há uma vida esperando: trabalho, descanso, pessoas, compromissos. A escolha precisa considerar tudo isso. É por essa possibilidade de olhar para a vida além do conflito que aquela leitura da década de 1980 continua sendo um ponto de partida tão significativo para mim.
Para muitas situações que enfrentamos – inclusive nos grupos de família – fica uma pergunta para levar adiante: antes de tentar recuperar cada pequena perda, quanto ainda estamos dispostos a perder nessa tentativa?
“Tens poder sobre a tua mente, não sobre os acontecimentos externos.” Marco Aurélio, Meditações, Livro II
Referências
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Os Pensadores).
ARKES, Hal R.; BLUMER, Catherine. The psychology of sunk cost. Organizational Behavior and Human Decision Processes, v. 35, n. 1, p. 124-140, 1985. DOI: 10.1016/0749-5978(85)90049-4.
CACERES-SANTAMARIA, Andrea. Money and Missed Opportunities. St. Louis: Federal Reserve Bank of St. Louis, 2019. Disponível em: https://www.stlouisfed.org/publications/page-one-economics/2019/10/01/money-and-missed-opportunities.
FRANKLIN, Benjamin. Poor Richard’s Almanack. Filadélfia, 1747.
KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
LISPECTOR, Clarice. Das vantagens de ser bobo. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12 set. 1970. In: Todas as crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2018. p. 324-326.
LUSIGNAN, Kerry. Love Smarter by Learning When to Take a Break. The Gottman Institute, 2017. Disponível em: https://www.gottman.com/blog/love-smarter-learning-take-break/.
MARCO AURÉLIO. Meditações. Livro II, 9.
SÊNECA. Sobre a ira. Sobre a tranquilidade da alma: diálogos. Tradução de José Eduardo S. Lohner. São Paulo: Penguin Companhia das Letras, 2014.
SHAKESPEARE, William. As You Like It (Como Gostais). Ato V, Cena I.
THE GOTTMAN INSTITUTE. Get Back on Track During Conflict. The Gottman Institute, 2022. Disponível em: https://www.gottman.com/blog/get-back-on-track-during-conflict/.
Prof. Dr. João Oliveira Psicólogo, CRP 05/32031 ISEC, Instituto de Psicologia Ser e Crescer
Se pequenos conflitos continuam ocupando seu pensamento muito depois de terminarem, uma sessão inicial telepresencial de alinhamento pode ajudar a compreender esse padrão e a trabalhar formas de estabelecer limites e encerrar disputas. Acesse o formulário para solicitar sua sessão.





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