Abaixa a cabeça, pensa por 5 segundos e responde:
— Sim Estou.
Provavelmente você já participou desse pequeno diálogo dezenas, talvez centenas de vezes. Em muitas delas, tudo estava realmente bem. Em outras, porém, havia algo curioso acontecendo:
quem perguntou percebeu que a outra pessoa não estava bem, e quem respondeu sabia perfeitamente que não estava.
Mesmo assim, um perguntou e o outro respondeu aquilo que parecia ser esperado.
Ninguém mentiu exatamente. Ninguém pretendeu enganar ninguém. Apenas cumprimos um pequeno roteiro social que aprendemos tão bem que já não precisamos pensar para executá-lo.
E fazemos isso o tempo todo.
- “Bom dia.”
- “Tudo bem?”
- “A gente se fala.”
- “Passa lá em casa.”
- “Vamos marcar um café.”
- “Não some não rapaz.”
- “Qualquer coisa, pode contar comigo.”
Talvez o problema não esteja nessas palavras. O problema começa quando elas deixam de ser uma ponte entre duas pessoas e passam a ocupar o lugar do encontro que deveriam facilitar.
Henry David Thoreau escreveu, em Life Without Principle, publicado em 1863:
“O maior elogio que já me fizeram foi quando alguém perguntou o que eu pensava e prestou atenção à minha resposta.”
Mais de 160 anos depois, talvez a segunda parte da frase continue sendo muito mais difícil do que a primeira. Afinal, perguntar é fácil.
Mas estamos realmente interessados na resposta?
QUANDO FALAR É APENAS CUMPRIR O ROTEIRO
Em 1923, o antropólogo Bronisław Malinowski chamou de comunhão fática uma forma de utilização da linguagem cuja finalidade principal não é transmitir informação, mas estabelecer e manter vínculos sociais.
Isso explica muito do que fazemos diariamente.
Quando entramos em um elevador e dizemos “Bom dia”, provavelmente não estamos realizando uma avaliação consciente sobre as próximas 24 horas daquela pessoa.
Ao encontrar um conhecido e perguntamos “Tudo bem?”, muitas vezes a pergunta funciona mais como cumprimento do que como investigação sobre seu estado emocional.
De fato, não há necessariamente nada errado nisso. Os rituais sociais possuem função. Reconhecem a presença do outro, reduzem estranhamentos, facilitam aproximações e tornam possível a convivência entre pessoas que não precisam compartilhar intimidade para compartilhar um espaço.
O problema começa quando não percebemos que mudamos de contexto. Pois, um “Tudo bem?” dirigido ao vizinho no elevador pode ser apenas cordialidade. Mas, a mesma pergunta feita a alguém que acaba de perder uma pessoa importante, atravessa uma separação, recebeu uma notícia difícil ou demonstra sofrimento evidente já não acontece no mesmo território emocional.
A frase é a mesma. No entanto, a necessidade do outro não é.
“QUALQUER DIA A GENTE MARCA”
Algumas dessas expressões curiosas onde todos parecem compreender que aquilo que está sendo dito talvez nunca aconteça foram estudadas pela pragmática da linguagem. Ellen Isaacs e Herbert Clark utilizaram a expressão ostensible invitations — convites ostensivos — para situações nas quais alguém formula um convite que não necessariamente espera que seja levado a sério.
Existe uma espécie de acordo silencioso entre as partes.
Eu digo “aparece lá em casa qualquer dia”. Você responde “vou sim”. Eu sei que talvez você não vá. Você sabe que provavelmente não há um convite concreto.
E ambos saímos da interação satisfeitos porque realizamos corretamente aquilo que socialmente se esperava de nós.
Mais uma vez, isso não precisa ser entendido como falsidade. Mas talvez mereça ser percebido como. Isso, porque existe uma diferença considerável entre expressar uma intenção e assumir um compromisso com aquilo que foi dito.
“Precisamos nos encontrar” produz uma sensação momentânea de proximidade. “Posso ir à sua casa sábado às quatro?” produz comportamento.
Talvez “qualquer dia” seja uma das maneiras mais elegantes que inventamos de colocar nossas intenções em um lugar onde elas nunca precisarão encontrar o calendário real.
O AUTOMÁTICO É ECONÔMICO. MAS QUAL É O PREÇO?
A vida humana depende de automatismos. Seria inviável deliberar conscientemente sobre cada movimento, cada decisão e cada interação. Pesquisadores como John Bargh demonstraram durante décadas quanto do comportamento social pode ser influenciado por processos que ocorrem sem plena deliberação consciente.
Automatizar economiza recursos. Aprendemos sequências, desenvolvemos hábitos, reconhecemos situações e acionamos respostas conhecidas. Isso permite que a atenção seja direcionada para aquilo que exige maior processamento.
O problema é que também podemos automatizar a presença.
Somos apresentados a alguém, perguntamos seu nome e segundos depois já não conseguimos lembrá-lo. Não necessariamente porque temos dificuldade de memória, mas porque enquanto a pessoa dizia o nome estávamos pensando no que falaríamos em seguida.
- Perguntamos “Como foi sua viagem?” e olhamos para o celular durante a resposta.
- Dizemos “Estou ouvindo”, enquanto mentalmente preparamos nosso argumento.
- Abraçamos alguém enquanto nossos olhos procuram outra pessoa no ambiente.
- Perguntamos “O que aconteceu?” e interrompemos a explicação para contar uma experiência semelhante que aconteceu conosco.
Simone Weil escreveu em uma carta ao poeta Joë Bousquet, em 13 de abril de 1942:
“A atenção é a forma mais rara e mais pura de generosidade.”
Talvez seja justamente por isso que ela seja tão difícil. Dar atenção significa, durante algum tempo, retirar a nós mesmos do centro da experiência.
O automatismo economiza energia. Mas algumas relações podem estar pagando a conta.
QUANDO “VOCÊ ESTÁ BEM?” AUMENTA A DISTÂNCIA
Voltemos à nossa pergunta: – “Você está bem?”
Mas, desta vez, imagine que a resposta seja diferente. – “Na verdade, não muito.”
Existe um pequeno instante depois dessa frase em que alguma coisa pode acontecer.
Uma porta foi aberta. Mas, sem pensar, respondemos imediatamente: – “Não fica assim. Vai ficar tudo bem.”
Provavelmente houve boa intenção. Talvez exista afeto verdadeiro. Quem respondeu pode estar sinceramente tentando ajudar.
Mas intenção de acolher e experiência de ser acolhido não são necessariamente a mesma coisa.
Uma meta-análise conduzida por Mason Haber, Jay Cohen, Todd Lucas e Boris Baltes mostrou justamente que apoio recebido e apoio percebido são construtos diferentes. Analisando 23 estudos, os pesquisadores encontraram uma correlação moderada entre eles.
Em outras palavras: alguém pode oferecer aquilo que considera apoio sem que o outro necessariamente experimente aquilo como apoio.
Pesquisas sobre responsividade percebida aprofundam essa questão. Harry Reis e outros pesquisadores vêm estudando a percepção de que uma pessoa significativa compreende nossas preocupações, valida nossa experiência e se importa conosco. Esses elementos — sentir-se compreendido, validado e cuidado — estão intimamente relacionados à construção da intimidade.
É aqui que podemos pensar em algo que chamarei de gap emocional. Existe uma necessidade de acolhimento. A pessoa tenta se aproximar. Recebe uma resposta automática. A comunicação aconteceu, mas a necessidade permaneceu onde estava.
Às vezes, pior: a distância aumenta. Porque agora a pessoa não está apenas sofrendo:
Está sofrendo diante de alguém e, ainda assim, não se sente compreendida.
Carl Rogers escreveu sobre a experiência de ser verdadeiramente ouvido e sobre como aquilo que parecia insolúvel pode começar a adquirir outra configuração quando alguém efetivamente escuta.
Talvez por isso algumas frases aparentemente positivas tenham efeitos tão diferentes daqueles que imaginamos.
- “Você precisa ser forte.”
- “Não pense nisso.”
- “Pense positivo.”
- “Tudo acontece por alguma razão.”
- “Tem gente passando por coisa pior.”
- “Logo passa.”
Muitas vezes não estamos tentando apenas diminuir o sofrimento do outro.
Talvez estejamos tentando diminuir o desconforto que sentimos diante do sofrimento do outro. E são coisas bastante diferentes.
TALVEZ NÃO SEJA PRECISO FALAR MAIS. TALVEZ SEJA PRECISO FALAR MELHOR.
Não precisamos eliminar “Bom dia”, “Tudo bem?” ou qualquer outro ritual de cordialidade. Precisamos recuperar a capacidade de perceber quando o contexto exige algo além do ritual. E isso pode começar com mudanças muito pequenas na comunicação.
VAMOS A UM BREVE EXERCÍCIO: TROQUE ISSO POR AQUILO
Em vez de: “Você está bem?” Experimente: “Percebi que você não parece estar bem. Quer falar sobre isso?”
Em vez de: “Vai ficar tudo bem.” Experimente: “Imagino que esteja sendo difícil. Quer me contar o que está acontecendo?”
Em vez de: “Qualquer coisa, estou aqui.” Experimente: “O que eu poderia fazer por você neste momento?”
Em vez de: “Você precisa ser forte.” Experimente: “Você não precisa fingir que está bem comigo.”
Em vez de: “Vamos marcar qualquer dia.” Experimente: “Quero realmente encontrar você. Que dia pode funcionar para nós dois?”
Em vez de: “Não some.” Experimente: “Vou procurar você novamente esta semana.”
Observe o que mudou.
Saímos da generalidade para a especificidade. Da intenção para o comportamento. Do conselho para a escuta. Da promessa indefinida para uma ação possível.
Mas existe uma advertência. Nenhuma dessas frases funciona como fórmula mágica. Podemos transformar “Quer falar sobre isso?” em um novo automatismo e continuar olhando para o relógio enquanto esperamos a resposta.
A qualidade da comunicação não está apenas na escolha das palavras: Está na disponibilidade que existe por trás delas.
QUANDO A CONVERSA JÁ NÃO É SUFICIENTE
Há também um limite importante que precisa ser reconhecido. Amigos não são terapeutas. Companheiros não precisam saber manejar todas as formas de sofrimento. Filhos não precisam resolver os conflitos dos pais. Pais não terão respostas para todas as angústias dos filhos.
As relações afetivas são fundamentais, mas possuem limites.
- Às vezes quem nos ama não sabe ouvir.
- Às vezes sabe, mas está emocionalmente envolvido demais.
- Às vezes tenta ajudar oferecendo conselhos, comparando experiências ou procurando soluções justamente quando ainda precisamos (apenas) compreender o que estamos sentindo.
E há situações em que começamos a perceber algo ainda mais delicado:
quanto mais precisamos falar, menos encontramos onde falar verdadeiramente.
É nesse ponto que um espaço profissional pode adquirir outro significado. Não porque o psicólogo substitua amigos, família, companheiros ou qualquer outra relação significativa. Jamais irá substituir.
O espaço profissional possui outra função.
Nele, a pergunta não precisa ser feita apenas para manter a conversa funcionando. Existe um ambiente deliberadamente construído para explorar aquilo que talvez não esteja encontrando elaboração em outros lugares.
Carl Rogers descreveu a escuta empática como um esforço para ouvir profundamente, com precisão e sem julgamento.
Talvez existam momentos da vida em que não precisamos de alguém que tenha uma resposta. Precisamos de um espaço onde finalmente possamos encontrar a nossa própria.
AFINAL, VOCÊ ESTÁ BEM?
Voltemos ao início: – “Você está bem?”
Talvez não exista absolutamente nada de errado com essa pergunta. O problema talvez esteja em termos nos acostumado demais a uma única resposta.
— Estou.
- Ela facilita.
- Encerra.
- Permite continuar sem peso.
Mas um relacionamento humano verdadeiro não pode existir apenas quando as respostas do outro são confortáveis para nós.
Há momentos em que acolher significa não aconselhar imediatamente.
- Não corrigir.
- Não comparar.
- Não minimizar.
- Não preencher o silêncio.
Apenas permanecer tempo suficiente para compreender.
Thoreau ficou impressionado quando alguém perguntou o que ele pensava e prestou atenção à resposta. Já Simone Weil chamou atenção de generosidade. O Carl Rogers dedicou grande parte de sua obra à extraordinária potência psicológica de alguém sentir-se genuinamente ouvido.
Pode ser que todos estejam apontando, por caminhos diferentes, para algo bastante simples: perguntar cria uma abertura; escutar transforma essa abertura em encontro.
Por isso, da próxima vez que encontrarmos alguém que claramente atravessa um momento difícil, talvez seja importante pensar um pouco antes de perguntar automaticamente: – “Você está bem?”
Porque existe uma segunda pergunta, silenciosa, que deveria vir antes dela. Se a resposta for “não”, haverá espaço em mim para ouvi-la?
REFERÊNCIAS
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CRASTA, D.; ROGGE, R. D.; MANIACI, M. R.; REIS, H. T. Toward an optimized measure of perceived partner responsiveness: Development and validation of the perceived responsiveness and insensitivity scale. Psychological Assessment, v. 33, n. 4, p. 338–355, 2021. DOI: 10.1037/pas0000986.
HABER, M. G.; COHEN, J. L.; LUCAS, T.; BALTES, B. B. The relationship between self-reported received and perceived social support: A meta-analytic review. American Journal of Community Psychology, v. 39, p. 133–144, 2007. DOI: 10.1007/s10464-007-9100-9.
ISAACS, E. A.; CLARK, H. H. Ostensible Invitations. Language in Society, v. 19, n. 4, p. 493–509, 1990.
MALINOWSKI, B. The Problem of Meaning in Primitive Languages. In: OGDEN, C. K.; RICHARDS, I. A. The Meaning of Meaning. London: Kegan Paul, 1923.
REIS, H. T.; SHAVER, P. Intimacy as an interpersonal process. In: DUCK, S. et al. (eds.). Handbook of Personal Relationships. Chichester: Wiley, 1988.
ROGERS, C. R. Client-Centered Therapy: Its Current Practice, Implications and Theory. Boston: Houghton Mifflin, 1951.
ROGERS, C. R. A Way of Being. Boston: Houghton Mifflin, 1980.
THOREAU, H. D. Life Without Principle. The Atlantic Monthly, 1863.
WEIL, S. Carta a Joë Bousquet, 13 abr. 1942. Posteriormente publicada em Correspondance. Lausanne: Éditions L’Âge d’Homme, 1982.
Prof. Dr. João Oliveira Psicólogo (CRP 05/32031) | ISEC – Instituto de Psicologia Ser e Crescer
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