Se o mundo pode mudar antes que estejamos preparados, onde devemos procurar segurança?
Há poucos anos, se alguém afirmasse que praticamente todos os países do planeta fechariam suas fronteiras ao mesmo tempo, que aviões ficariam parados nos pátios dos aeroportos, que escolas seriam esvaziadas, que empresas mandariam seus funcionários para casa da noite para o dia e que bilhões de pessoas passariam a circular pelas ruas usando máscaras, a reação mais provável seria de descrédito. Diríamos, com toda a razão aparente, que essa pessoa estava exagerando.
Então veio a pandemia.
Hoje, ouvir que uma profissão respeitada pode perder grande parte de suas funções para uma tecnologia já não soa como ficção científica. Ouvir que alguém completamente desconhecido pode pegar um celular, publicar um vídeo e, em poucos dias, ser visto por milhões de pessoas, também não soa improvável: já aconteceu, mais de uma vez, diante dos nossos próprios olhos muito rapidamente.
Estamos aprendendo, talvez da maneira mais desconfortável possível, uma característica fundamental da existência: a vida é muito menos previsível do que gostaríamos que fosse. E essa imprevisibilidade não escolhe lado. Vale para aquilo que tememos, mas vale, com a mesma força, para aquilo que desejamos.
“A única constante na vida é a mudança.” — Heráclito de Éfeso
Talvez, por isso, precisemos ter mais cuidado com uma palavra tão definitiva quanto perigosa:
jamais.
A VIDA NÃO ASSINOU NENHUM CONTRATO
Existe uma crença silenciosa que acompanha grande parte das pessoas, mesmo quando nunca foi dita em voz alta: se eu estudar, trabalhar, agir corretamente, cuidar da saúde, respeitar os outros e tomar boas decisões, estarei protegido das grandes adversidades. Seria reconfortante se a vida funcionasse dessa maneira.
Mas não funciona assim, e talvez nunca tenha funcionado.
- Pessoas boas adoecem.
- Pessoas competentes perdem empregos que pareciam garantidos.
- Empresas aparentemente indestrutíveis desaparecem em poucos anos.
- Relacionamentos construídos com cuidado terminam sem aviso.
- Fortunas que levaram uma vida inteira para se formar podem ser perdidas em poucos meses.
- Projetos planejados com rigor e paciência fracassam por razões que ninguém havia previsto.
Nada disso significa que nossas escolhas sejam irrelevantes. Elas modificam probabilidades, ampliam possibilidades e reduzem riscos de forma real e mensurável. O problema é que probabilidade não é garantia, e talvez essa seja uma das confusões mais custosas que carregamos: tratar aquilo que é provável como se fosse certo, e sentir-nos traídos pela vida quando ela simplesmente cumpre a sua natureza, que sempre foi incerta.
“Não são as coisas que perturbam os homens, mas as opiniões que eles têm a respeito delas.” — Epicteto, Enquirídio, capítulo 5
A pandemia de COVID-19 foi talvez uma das maiores demonstrações contemporâneas dessa fragilidade. Em poucas semanas, planos pessoais, modelos de trabalho, cadeias econômicas inteiras e formas básicas de convivência foram alterados simultaneamente, em praticamente todos os continentes ao mesmo tempo.
E existe algo ainda mais interessante nessa história: a imprevisibilidade possui duas direções. Uma pessoa pode perder em poucos meses aquilo que levou décadas para construir. Mas outra pessoa pode encontrar, no mesmo período, uma oportunidade que simplesmente não existia alguns meses antes.
Durante grande parte do século XX, alcançar milhões de pessoas exigia atravessar estruturas poderosas e caras:
- emissoras de televisão,
- jornais impressos,
- editoras,
- gravadoras,
- produtoras,
- grandes corporações.
Hoje existe um objeto no bolso de bilhões de pessoas capaz de romper inteiramente essa lógica. O celular transformou qualquer indivíduo, potencialmente, em um meio de comunicação próprio. Alguém desconhecido pela manhã pode tornar-se um fenômeno digital à noite. Um pequeno negócio pode alcançar milhares de consumidores sem investir em uma única emissora. Uma ideia pode atravessar continentes antes mesmo que seu autor compreenda o que está acontecendo.
Isso não significa que todos ficarão famosos ou ricos. Significa algo mais profundo: as antigas barreiras de entrada foram profundamente modificadas. Portanto, quando pensamos na imprevisibilidade, não deveríamos perguntar apenas “e se alguma coisa der errado?”. Também deveríamos perguntar: “e se alguma coisa extraordinariamente boa acontecer, e eu precisar estar preparado para recebê-la?”
“Não é a espécie mais forte que sobrevive, nem a mais inteligente, mas a mais responsiva à mudança.” — Charles Darwin
O CÉREBRO DIANTE DE UM MUNDO QUE NÃO CONSEGUE PREVER
Existe uma razão psicológica, e também neurobiológica, para desejarmos tanto a estabilidade. Nosso cérebro trabalha permanentemente com probabilidades: a experiência anterior ajuda a antecipar o que poderá acontecer e, a partir disso, organiza comportamento, atenção e respostas fisiológicas antes mesmo que a situação se manifeste por completo.
Prever é, em essência, adaptativo.
O problema surge quando a distância entre aquilo que esperamos e aquilo que de fato acontece aumenta continuamente, sem que consigamos atualizar nossos modelos internos na mesma velocidade em que o mundo se transforma.
Uma revisão publicada em 2024 na Neuroscience & Biobehavioral Reviews examinou justamente a relação entre incerteza e ansiedade. Blanchard e Canterasmostram como situações de ameaça incerta podem favorecer padrões defensivos caracterizados, entre outros aspectos, por maior generalização do medo e por resistência à extinção dessas respostas defensivas.
Ou seja, para o organismo, não saber o que acontecerá também pode constituir, por si só, uma fonte de ameaça.
Neste ano, 2026, Akbari e colaboradores publicaram uma extensa meta-análise sobre intolerância à incerteza, preocupação e ansiedade, reunindo 738 tamanhos de efeito provenientes de 115 estudos e dissertações, totalizando 28.693 participantes. Os resultados mostraram associação importante entre intolerância à incerteza e preocupação, e essa relação apareceu com força particular no transtorno de ansiedade generalizada. Os autores apontam a preocupação como um mecanismo cognitivo central na ligação entre a intolerância à incerteza e os quadros ansiosos.
Outra meta-análise, publicada em 2025 no Journal of Anxiety Disorders, reuniu 37 estudos para investigar a intolerância à incerteza ao longo da vida adulta e encontrou sua associação consistente com ansiedade e outros indicadores de saúde mental, inclusive entre populações mais velhas.
Isso ajuda a compreender melhor o nosso tempo. Talvez não estejamos apenas vivendo muitas mudanças; estamos vivendo mudanças em uma velocidade para a qual nossos modelos mentais precisam ser continuamente atualizados. E existe um preço emocional nisso. A sensação de não acompanhar o mundo, a comparação permanente que as redes sociais tornaram cotidiana, o medo de tornar-se profissionalmente obsoleto e a necessidade de antecipar aquilo que ainda nem aconteceu podem alimentar preocupação, ansiedade e uma busca excessiva por controle.
“A medida da inteligência é a capacidade de mudar.” — Albert Einstein
O QUE PERMANECE SOB NOSSO CONTROLE QUANDO QUASE NADA PARECE ESTAR
Se a incerteza é, em alguma medida, inevitável, resta perguntar o que fazemos com ela. E aqui a psicologia contemporânea encontra um aliado inesperado na filosofia antiga.
Há mais de dois mil anos, o filósofo estoico Epicteto abriu seu Enquirídiocom uma distinção que continua sendo, hoje, uma das bases de diferentes abordagens terapêuticas: existem coisas que dependem de nós, como nossos julgamentos, nossos esforços e nossas escolhas, e existem coisas que não dependem de nós, como a saúde, a reputação, o comportamento alheio e os acontecimentos externos em geral.
Grande parte do nosso sofrimento nasce de tratarmos como controlável aquilo que nunca esteve sob o nosso controle.
Essa distinção não é apenas um exercício filosófico antigo. Ela ecoa diretamente naquilo que a psicologia contemporânea chama de flexibilidade psicológica: a capacidade de perceber as demandas de cada situação e ajustar atenção, pensamentos e comportamento sem abandonar aquilo que realmente importa para a pessoa naquele momento.
Uma revisão clássica de Todd Kashdan e Jonathan Rottenberg, publicada em 2010 na Clinical Psychology Review, reuniu décadas de pesquisa relacionando esse funcionamento à saúde psicológica e à capacidade de adaptação diante de mudanças de contexto. Os autores destacaram justamente a sensibilidade às demandas de cada momento e a disposição para mudar de estratégia quando a estratégia anterior deixa de funcionar.
Isso não significa aceitar qualquer coisa passivamente, nem suprimir o desconforto legítimo diante das perdas. Significa, antes, reconhecer com clareza aquilo que está sob a nossa influência (nossos hábitos, nossos aprendizados, a forma como respondemos ao que acontece) e investir ali a nossa energia, em vez de gastá-la tentando controlar um futuro que, por definição, nunca esteve inteiramente em nossas mãos.
“A boa vida é um processo, não um estado de ser.” — Carl Rogers, Tornar-se Pessoa (1961)
QUANDO O FUTURO PROFISSIONAL DEIXOU DE SEGUIR O ROTEIRO
Durante muito tempo, oferecemos às pessoas uma sequência aparentemente lógica:
- estudar,
- formar-se,
- conseguir um emprego,
- desenvolver uma carreira,
- aumentar a renda,
- aposentar-se.
Esse caminho nunca foi garantido nem universal, mas funcionava suficientemente bem para constituir uma espécie de mapa social compartilhado.
Hoje esse mapa está sendo redesenhado enquanto ainda caminhamos sobre ele.
Em 2024, a OCDEanalisou como a inteligência artificial estava alterando a demanda por competências no mercado de trabalho. Uma das conclusões mais interessantes foi que a maioria dos trabalhadores expostos à IA provavelmente não precisará tornar-se especialista em inteligência artificial.
A transformação é mais sutil e, talvez, mais profunda: a IA modifica as tarefas realizadas dentro das próprias profissões e, como consequência, modifica também as competências necessárias para realizá-las. Nos dados analisados pela OCDE, as ocupações altamente expostas à IA representavam cerca de um terço das vagas da amostra, e mais da metade delas já exigia pelo menos uma competência social, emocional ou digital de nível mais elevado.
Em agosto de 2026, um relatório conjunto coordenado pela Organização Internacional do Trabalho voltou a confirmar essa transformação. A expansão da inteligência artificial está aumentando a importância de competências cognitivas de ordem superior, competências socioemocionais, conhecimentos digitais, adaptabilidade, resiliência e da capacidade humana de agir diante de contextos inteiramente novos.
Isso produz uma pergunta desconfortável para o nosso antigo modelo educacional: como preparar alguém, durante quatro ou cinco anos, para um mercado que poderá ser bastante diferente no momento em que essa pessoa finalmente receber o diploma?
Talvez tenhamos passado tempo demais ensinando pessoas a dominar respostas prontas, e tempo de menos ensinando-as a lidar com perguntas que ainda nem existem.
“O analfabeto do século XXI não será aquele que não sabe ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender.” — Alvin Toffler, O Choque do Futuro
Conhecimento continua sendo indispensável. Formação continua sendo necessária. Mas diploma e competência já não podem ser tratados como acontecimentos concluídos: aprender tornou-se, de fato, uma condição permanente.
“A única pessoa educada é aquela que aprendeu como aprender e mudar.” — Carl Rogers, Liberdade para Aprender (1969)
TALVEZ SEGURANÇA SIGNIFIQUE OUTRA COISA
Se não podemos garantir que uma profissão permanecerá igual, que uma tecnologia continuará relevante, que um investimento sempre prosperará ou que nossos planos pessoais acontecerão exatamente como imaginamos, significa que devemos desistir de planejar?
Exatamente o contrário: precisamos planejar.
Mas precisamos abandonar a fantasia de que planejamento significa controle sobre o futuro. Existe uma diferença enorme entre preparar-se para amanhã e exigir que amanhã obedeça ao nosso projeto.
Talvez a segurança que precisamos construir neste século esteja menos nas circunstâncias externas e mais nos recursos internos que carregamos quando essas circunstâncias mudam:
- flexibilidade cognitiva,
- capacidade de aprender,
- pensamento crítico,
- criatividade,
- autorregulação emocional,
- adaptação e
- disposição para abandonar estratégias que deixaram de funcionar.
“Quando já não podemos mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.” — Viktor Frankl, Em Busca de Sentido
Essa talvez seja uma das grandes competências psicológicas do nosso tempo. Não saberemos antecipadamente tudo aquilo que perderemos, mas também não sabemos tudo aquilo que poderemos encontrar. A pessoa que hoje atravessa uma crise não conhece necessariamente o último capítulo dessa história. Da mesma maneira, quem vive um momento extraordinário não recebeu nenhuma garantia de permanência.
A imprevisibilidade exige humildade nos momentos de sucesso e esperança nos momentos de dificuldade, porque nenhuma circunstância tem obrigação de permanecer exatamente como está.
Talvez seja por isso que devamos retirar, de uma vez por todas, uma palavra do nosso vocabulário de certezas:
jamais.
Faça planos. Estude. Construa. Invista. Ame. Prepare-se. Mas deixe algum espaço para aquilo que você ainda não consegue imaginar, porque a imprevisibilidade não é apenas o lugar onde moram os nossos maiores medos. É também o lugar onde nascem as possibilidades que hoje sequer somos capazes de enxergar.
E antes de afirmar novamente que alguma coisa “jamais” acontecerá, talvez valha a pena fazer uma última pergunta:
Quantas vezes a vida ainda precisará nos surpreender para compreendermos que o futuro nunca nos pertenceu completamente?
REFERÊNCIAS
AKBARI, M.; SHEIKHI, S.; NAVAB SAFIADIN, M. S.; RAHMANI, M.; FOROOTAN, R.; ASMUNDSON, G. J. G. A hierarchical uncertainty framework of anxiety: Preregistered meta-analytic structural model of intolerance of uncertainty and worry across anxiety disorders. Clinical Psychology Review, v. 128, 102773, 2026. DOI: 10.1016/j.cpr.2026.102773.
BLANCHARD, D. C.; CANTERAS, N. S. Uncertainty and anxiety: Evolution and neurobiology. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, v. 162, 105732, 2024. DOI: 10.1016/j.neubiorev.2024.105732.
EPICTETO. Enquirídio (Manual). São Paulo: Edipro, 2015.
FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.
GREEN, Andrew. Artificial Intelligence and the Changing Demand for Skills in the Labour Market. OECD Artificial Intelligence Papers, n. 14. Paris: OECD Publishing, 2024. DOI: 10.1787/88684e36-en.
INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION et al. Changing Landscape of Skills in the Age of AI. Geneva: ILO, 2026.
KASHDAN, Todd B.; ROTTENBERG, Jonathan. Psychological flexibility as a fundamental aspect of health. Clinical Psychology Review, v. 30, n. 7, p. 865-878, 2010. DOI: 10.1016/j.cpr.2010.03.001.
ROGERS, Carl R. Tornar-se Pessoa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
ROGERS, Carl R. Liberdade para Aprender. Belo Horizonte: Interlivros, 1972.
TOFFLER, Alvin. O Choque do Futuro. Rio de Janeiro: Record, 1970.
YU, M. H. M.; CAO, Y.; FUNG, S. S. Y.; KWAN, G. S. Y.; TSE, Z. C. K.; SHUM, D. H. K. Intolerance of uncertainty, aging, and anxiety and mental health concerns: A scoping review and meta-analysis. Journal of Anxiety Disorders, v. 110, 102975, 2025. DOI: 10.1016/j.janxdis.2025.102975.
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