O medo do terapeuta de perder a sensibilidade no atendimento digital
Quando um terapeuta pensa em migrar parte de sua prática para o ambiente digital, uma das primeiras inquietações raramente é tecnológica.
- Não costuma ser a câmera.
- Nem o microfone.
- Não é a dificuldade em conhecer as plataformas de chamadas online.
- Também não é como usar as IAs e os agentes que elas podem ter.
Acredite, tenho convicção sobre isso, sempre estou conversando com os nossos mais de 800 alunos nos mais diversos treinamentos que temos voltados para psicólogos e terapeutas e ouço a mesma dúvida.
A pergunta mais profunda costuma ser esta:
“Será que conseguirei manter a mesma sensibilidade diante do meu paciente?”
Para muitos profissionais, especialmente aqueles formados em uma tradição fortemente presencial, existe o receio de que alguma coisa essencial se perca quando o encontro passa a acontecer através de uma tela.
- O olhar parece diferente.
- O silêncio parece diferente.
- O corpo deixa de estar inteiro no campo perceptivo.
- A sensação de proximidade muda.
E então surge uma preocupação legítima:
será que a tecnologia empobrece a relação terapêutica?
A pesquisa científica recente sugere uma resposta mais interessante do que simplesmente “sim” ou “não”.
Ela indica que a relação muda — mas isso não significa necessariamente que ela se torne pior.
O medo existe — e ele não nasceu do nada
Pesquisas com psicólogos mostram que a preocupação com a qualidade da aliança terapêutica esteve entre as principais barreiras à adoção da telepsicologia.
Em um estudo com 2.619 psicólogos, publicado em 2023, entre os obstáculos mais citados para utilizar telepsicologia estavam justamente a percepção de possível redução da aliança terapêutica, problemas tecnológicos, dúvidas sobre a qualidade do cuidado e preocupações com privacidade.
Ou seja: o desconforto de muitos profissionais diante do atendimento digital não é uma resistência imaginária.
Ele existe e até faz algum sentido.
Ocorre que o terapeuta foi treinado durante décadas para captar elementos muito sutis da experiência humana: postura corporal, hesitações, microexpressões, respiração, movimentos de aproximação e afastamento, silêncios, mudanças na voz e alterações no campo relacional.
No ambiente digital, parte dessa informação passa a ser mediada por câmera, enquadramento, latência, iluminação e qualidade de áudio.
Mas existe uma distinção fundamental:
perder algumas pistas não significa perder a relação.
O que as meta-análises mostram sobre aliança terapêutica
Uma das evidências mais importantes veio de uma revisão sistemática e meta-análise publicada no Journal of Telemedicine and Telecare, comparando diretamente psicoterapia por videoconferência e psicoterapia presencial.
Foram analisadas 18 publicações e o resultado foi bastante claro:
não houve diferença estatisticamente significativa na aliança terapêutica, tanto quando ela foi avaliada pelos pacientes quanto quando foi avaliada pelos terapeutas.
Os pacientes avaliaram a aliança no atendimento por vídeo de maneira muito próxima àquela observada no atendimento presencial. Os terapeutas também.
Isso é particularmente relevante porque desmonta uma associação intuitiva muito comum:
proximidade física não é sinônimo automático de proximidade terapêutica.
A aliança é construída por elementos mais complexos.
A aliança terapêutica continua importando no digital
Outra meta-análise recente, publicada em 2024, analisou 31 estudos, envolvendo 4.862 participantes, para investigar a relação entre qualidade da aliança terapêutica e resultados clínicos em teleterapia.
Os pesquisadores encontraram uma associação pequena, porém estatisticamente significativa, entre melhor aliança e melhores resultados terapêuticos.
Em outras palavras: a relação continua importando no atendimento remoto.
A tecnologia não elimina o vínculo e também não elimina a importância do terapeuta. Mas talvez mude parcialmente a maneira como esse vínculo é construído e percebido.
Talvez estejamos tentando reproduzir o presencial, quando deveríamos aprender uma nova linguagem
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para o terapeuta que entra no ambiente digital. O erro pode estar em tentar reproduzir exatamente o consultório presencial dentro de uma tela.
Porque o digital possui uma gramática própria.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 reforçou que a aliança terapêutica continua sendo um importante fator associado ao resultado tanto na psicoterapia presencial quanto na psicoterapia online.
Mas uma pesquisa qualitativa realizada com psicoterapeutas experientes em videoconferência mostrou algo ainda mais interessante. Os terapeutas relataram que a psicoterapia por vídeo possui características próprias relacionadas a:
- limites do setting;
- intimidade;
- proximidade e distância;
- envolvimento emocional;
- comunicação não verbal;
- corporeidade;
- abertura do paciente;
- significado psicológico do espaço virtual.
Alguns profissionais relataram dificuldades iniciais de sintonia emocional.
Entretanto, terapeutas com maior experiência em atendimento por videoconferência frequentemente perceberam a qualidade da relação e da aliança como semelhante àquela encontrada no presencial. E esse dado merece muita atenção.
Talvez parte da sensação de perda não esteja necessariamente no formato digital.
Pode ser que seja apenas a falta de familiaridade do terapeuta com esse novo formato.
O terapeuta pode se sentir menos conectado do que o paciente
Uma pesquisa recente sobre empatia em teleterapia trouxe um resultado particularmente provocador.
O estudo comparou 92 psicólogos e 80 pacientes adultos.
Os pacientes perceberam mais empatia por parte dos terapeutas do que os próprios psicólogos acreditavam estar transmitindo.
Os profissionais consideravam a terapia por videoconferência mais exigente e frequentemente sentiam maior dificuldade para comunicar empatia. Os pacientes, entretanto, percebiam essa empatia de maneira mais positiva.
Esse resultado sugere algo importante pois, o terapeuta pode pensar:
“Não estou conseguindo chegar ao paciente como chegaria presencialmente.”
Enquanto o paciente pode estar experimentando:
“Meu terapeuta está comigo.”
Existe, portanto, uma possível diferença entre a experiência interna do terapeuta e a experiência relacional percebida pelo paciente.
Quanto mais familiaridade, menor a insegurança
Outro estudo comparou a experiência de terapeutas que realizavam teleterapia por telefone e por videoconferência. Os pesquisadores observaram que o nível de dúvida profissional era maior na videoconferência.
Mas um resultado chamou atenção:
a experiência prévia com aquela modalidade estava associada a atitudes mais positivas.
Os autores concluíram que a familiaridade com a tecnologia pode ser mais importante para a confiança do terapeuta do que o tipo específico de tecnologia utilizada. O que nos leva a uma conclusão prática:
competência digital também é uma competência clínica.
Não é necessário que o terapeuta precise se transformar em técnico de informática. Mas precisa aprender como sua presença se manifesta naquele meio.
A presença não desaparece. Ela precisa ser recalibrada.
No consultório presencial, o corpo inteiro comunica. Ja no digital, o enquadramento seleciona parte desse corpo. Por isso, algumas pistas precisam se tornar mais intencionais.
- Expressão facial.
- Olhar.
- Ritmo.
- Tom de voz.
- Pausas.
- Silêncio.
- Feedback verbal.
- Confirmação de compreensão.
- Orientação explícita.
Tudo isso ganha importância.
O estudo sobre empatia em teleterapia citado anteriormente sugere estratégias muito concretas:
- tornar sinais não verbais mais perceptíveis;
- realizar verificações verbais explícitas;
- solicitar feedback do paciente;
- dedicar tempo à construção de sintonia;
- adaptar a comunicação às expectativas do paciente.
Ou seja:
a sensibilidade terapêutica não desaparece diante da câmera. Ela precisa ser traduzida.
A aliança digital tem outra configuração
Uma revisão publicada em 2026 comparou diferentes formatos de psicoterapia — presencial, online e híbrida. Os autores encontraram que a força da aliança terapêutica era, de modo geral, comparável entre as modalidades.
Mas levantaram uma hipótese interessante: no ambiente digital, talvez a aliança coloque relativamente mais ênfase na cooperação em torno de tarefas e objetivos terapêuticos, enquanto alguns elementos relacionais podem se organizar de maneira diferente.
Isso não quer dizer que o vínculo emocional desapareça.
Significa que talvez estejamos diante de outra ecologia relacional.
Não inferior. Apenas Diferente. Pois, ainda existe ainda uma segunda camada dessa discussão.
Muitos terapeutas não temem apenas a videoterapia.
Temem que a entrada da Inteligência Artificial transforme o atendimento em algo automatizado, impessoal ou excessivamente técnico.
Essa preocupação merece ser levada a sério. Uma revisão integrativa publicada em 2025 analisou 28 estudos relacionados ao conceito de aliança terapêutica digital, inclusive em intervenções que envolviam ferramentas baseadas em inteligência artificial.
Os autores identificaram elementos semelhantes aos encontrados nas teorias clássicas de aliança:
- vínculo;
- confiança;
- empatia;
- concordância sobre objetivos;
- colaboração nas tarefas;
- engajamento.
Ao mesmo tempo, destacaram que questões como personalização, ética e impacto de longo prazo ainda precisam de investigação adicional. Pense comigo, essa distinção é essencial. Pois:
- A Inteligência Artificial pode assumir tarefas. Pode organizar informações.
- Pode auxiliar na documentação.
- Pode igualmente apoiar no planejamento.
- Pode ajudar a produzir os mais diversos materiais.
Mas isso não transforma automaticamente a máquina no agente terapêutico central.
Quando processos operacionais são mais organizados, quando o profissional domina sua plataforma, quando não está preocupado com áudio ruim, conexão instável, prontuários atrasados ou tarefas administrativas acumuladas, ele terá mais disponibilidade cognitiva para estar presente com o paciente.
Nesse sentido, a tecnologia não precisa competir com a relação. Ela pode proteger espaço para a relação.
A tecnologia pode ocupar o entorno do processo. Mas a presença clínica continua sendo uma função humana.
“O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas são transformadas.” — Carl Gustav Jung
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Prof. Dr. João Oliveira Psicólogo Clínico | Atendimento Telepresencial
Referências
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Saxler E, Schindler T, Philipsen A, Schulze M, Lux S. Therapeutic alliance in individual adult psychotherapy: a systematic review of conceptualizations and measures for face-to-face- and online-psychotherapy. Frontiers in Psychology, 2024. Frontiers
The association between quality of therapeutic alliance and treatment outcomes in teletherapy: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review, 2024. PubMed
Lagetto G, et al. The Therapeutic Relationship in Videoconferencing Psychotherapy: A Qualitative Study of Therapists’ Experiences. Clinical Neuropsychiatry, 2024. PubMed
Malouin-Lachance A, et al. Does the Digital Therapeutic Alliance Exist? Integrative Review. JMIR Mental Health, 2025. JMH – JMIR Saúde Mental
Psychologists’ and patients’ views on empathy in teletherapy: A mixed-methods study. Patient Education and Counseling, 2026. ScienceDirect
Therapeutic alliance across delivery modalities: a systematic narrative review of alliance strength and outcome prediction in face-to-face, online, and blended psychotherapy. Journal of Zhejiang University-SCIENCE B, 2026.





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