Se ninguém pudesse nos ver, continuaríamos sendo bons?
Existem palavras que utilizamos com frequência, mas raramente paramos para examinar. Mal e maldade estão entre elas. Dizemos que alguém “nos fez mal”, que uma situação “acabou mal” ou que determinada pessoa agiu “com maldade”. Em nossa linguagem cotidiana, os dois conceitos parecem quase iguais. Contudo, quando observados com atenção, revelam diferenças importantes.
O mal pode ser entendido como tudo aquilo que provoca sofrimento, destruição, perda ou violação da dignidade. Uma doença causa um mal. Um acidente pode modificar uma vida. Uma palavra dita de maneira impensada pode ferir profundamente. Nem sempre, porém, existe alguém desejando que o sofrimento aconteça.
A maldade é diferente. Ela surge quando o sofrimento deixa de ser apenas uma consequência e passa a fazer parte da intenção. Existe maldade quando alguém sabe que sua ação poderá ferir e, ainda assim, decide continuar — seja para obter uma vantagem, exercer poder, vingar-se, controlar ou simplesmente experimentar satisfação diante da dor alheia.
Nem todo mal nasce da maldade. Mas toda maldade aceita, deseja ou utiliza alguma forma de mal.
“Procurei não rir das ações humanas, não lamentá-las, nem odiá-las, mas compreendê-las.” — Baruch Spinoza, Tratado Político
QUANDO FERIMOS SEM QUERER
Em algum momento, todos nós já provocamos sofrimento sem perceber. Interpretamos mal uma situação, falamos no momento errado, tomamos uma decisão apressada ou simplesmente não compreendemos o que o outro estava vivendo.
Para quem foi ferido, a dor não se torna menor apenas porque não havia intenção. Entretanto, a intenção modifica a natureza moral daquilo que aconteceu. Existe diferença entre tropeçar e empurrar, entre esquecer e abandonar deliberadamente, entre não perceber uma fragilidade e utilizá-la como arma.
Isso não significa que a frase “não fiz por mal” encerre o assunto. Mesmo quando não existe intenção, ainda pode existir responsabilidade. Algumas pessoas não desejam diretamente o sofrimento, mas sabem que sua conduta poderá provocá-lo e preferem não mudar. Outras evitam olhar para as consequências porque reconhecê-las exigiria uma atitude.
Entre o acidente e a crueldade encontramos situações como:
- a negligência, quando deixamos de oferecer um cuidado necessário;
- a omissão, quando poderíamos agir, mas escolhemos permanecer em silêncio;
- a indiferença, quando o sofrimento do outro parece não nos dizer respeito;
- a conveniência, quando aceitamos que alguém seja prejudicado para preservar nossos interesses.
A ausência de intenção pode explicar uma ação, mas nem sempre elimina a responsabilidade por ela. O que fazemos depois de perceber o dano também revela quem somos: podemos negar, minimizar e culpar o outro ou reconhecer, reparar e aprender.
“Cometer um erro e não corrigi-lo: isso, sim, pode ser chamado de erro.” — Confúcio, Analectos
O ANEL QUE TORNAVA TUDO POSSÍVEL
Depois de compreendermos a diferença entre mal e maldade, podemos entrar em uma das provocações mais inquietantes da filosofia.
No Livro II de A República, de Platão, Glauco apresenta a história do Anel de Giges. Um pastor encontra um anel capaz de torná-lo invisível. Ao perceber que poderia agir sem ser descoberto, ele utiliza o poder para aproximar-se da rainha, matar o rei e tomar o reino.
O centro da narrativa não está no objeto mágico, mas na pergunta que ele nos deixa: uma pessoa continuaria sendo justa se tivesse certeza de que jamais seria vista, descoberta ou punida?
Giges não se torna outra pessoa ao colocar o anel. Ele apenas passa a viver sem o olhar dos outros. A invisibilidade não cria necessariamente seus desejos; ela retira os obstáculos que o impediam de realizá-los.
Essa história atravessou os séculos porque o anel representa algo muito presente em nossa vida. Ele simboliza todas as situações nas quais acreditamos que não haverá testemunhas nem consequências. Pode ser uma posição de autoridade, uma conversa secreta, uma conta anônima, uma informação privilegiada ou uma relação em que o outro depende de nós.
O anel pergunta se nossa bondade nasce de uma convicção interior ou do medo de perder reputação, aprovação e pertencimento.
“Ninguém é justo por vontade própria, mas por necessidade, pois a justiça não é considerada um bem individual.” — Glauco, em A República, de Platão, Livro II
SOMOS BONS OU APENAS BEM VIGIADOS?
Platão não nos entrega uma resposta confortável. Sua provocação alcança aquilo que fazemos quando ninguém está olhando e também aquilo que pensamos quando acreditamos que ninguém poderia compreender.
As normas sociais são necessárias. Leis, acordos e consequências ajudam a limitar comportamentos destrutivos.
- Thomas Hobbes considerava que o medo, a competição e a busca pela autopreservação poderiam lançar os seres humanos em conflito quando não existisse uma força comum capaz de estabelecer limites.
- Jean-Jacques Rousseau olhou para o problema por outro ângulo. Em sua perspectiva, a desigualdade, a comparação social e a necessidade de reconhecimento contribuem para corromper as relações humanas. O mal não estaria apenas escondido dentro de cada indivíduo; poderia também ser estimulado por uma sociedade que transforma valor pessoal em disputa e poder.
- Immanuel Kant acrescentou outra dimensão: podemos reconhecer o que seria moralmente correto e, ainda assim, colocar nossos interesses acima desse princípio. Nem sempre abandonamos a consciência. Algumas vezes, nós a convencemos a trabalhar a favor do que desejamos.
É assim que surgem justificativas conhecidas:
- “todos fazem”,
- “eu não tinha escolha”,
- “ninguém ficará sabendo”,
- “a pessoa mereceu” ou
- “foi necessário”.
A consciência raramente desaparece de uma só vez. Antes disso, aprende a contar histórias que nos deixam confortáveis com nossas escolhas.
“Acima de tudo, não minta para si mesmo. Quem mente para si e escuta a própria mentira chega ao ponto de não distinguir a verdade dentro de si nem ao seu redor.” — Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov
A SOMBRA QUE TAMBÉM É NOSSA
É fácil reconhecer a crueldade quando ela está no outro. Mais difícil é admitir que também carregamos raiva, inveja, ressentimento, desejo de controle e vontade de revidar. Esses sentimentos não nos tornam automaticamente pessoas más. Eles nos tornam humanos.
Na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, a sombra reúne aspectos que não combinam com a imagem que construímos de nós mesmos e, por isso, preferimos não reconhecer. Queremos parecer generosos, mas também sentimos inveja. Desejamos ser amorosos, mas podemos guardar ressentimentos. Defendemos a justiça, mas às vezes somos mais rigorosos quando o erro é do outro.
A sombra não é sinônimo de maldade. Sentir raiva não é o mesmo que destruir. Imaginar uma vingança não equivale a realizá-la. Emoções e pensamentos não são ordens. A dimensão ética começa na forma como lidamos com aquilo que sentimos.
O perigo aumenta quando alguém se considera incapaz de qualquer mal. Tudo aquilo que a pessoa não admite em si tende a ser projetado nos outros. Convencida de que representa o bem, ela pode sentir-se autorizada a humilhar, perseguir ou eliminar quem definiu como mau.
Reconhecer a própria sombra não é entregar-se a ela. É impedir que ela conduza nossas ações sem ser percebida.
“Ninguém se torna iluminado imaginando figuras de luz, mas tornando consciente a escuridão.” — Carl Gustav Jung, Estudos Alquímicos
QUANDO O MAL PARECE NORMAL
Ao acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, Hannah Arendt formulou a expressão “banalidade do mal”. A filósofa não estava dizendo que o mal seria pequeno ou pouco importante. Estava mostrando que ações terríveis podem ser praticadas por pessoas aparentemente comuns, adaptadas a rotinas e hierarquias, que deixam de pensar criticamente sobre o que estão fazendo.
Nem toda crueldade é acompanhada por ódio intenso. Algumas vezes, ela acontece porque alguém apenas cumpre uma ordem, protege sua função, segue o grupo ou repete um procedimento. A responsabilidade é dividida em tantas partes que ninguém mais se reconhece como responsável.
Uma experiência que passou a ser frequentemente relacionada a essa discussão foi o Experimento da Prisão de Stanford, conduzido em 1971 pelo psicólogo Philip Zimbardo e seus colaboradores. Jovens universitários foram distribuídos aleatoriamente entre os papéis de guardas e prisioneiros em uma prisão simulada, construída no subsolo da Universidade Stanford. O estudo, planejado para durar duas semanas, foi interrompido depois de apenas seis dias, diante das humilhações praticadas por alguns “guardas” e do sofrimento emocional apresentado por alguns “prisioneiros”.
Durante muito tempo, o experimento foi apresentado como uma demonstração de que pessoas comuns poderiam rapidamente tornar-se cruéis quando colocadas em posições de poder. A situação criada parecia mostrar como uniformes, anonimato, hierarquia, despersonalização e ausência de limites claros poderiam modificar comportamentos e enfraquecer a percepção de responsabilidade individual.
Entretanto, análises posteriores levantaram importantes questionamentos sobre sua metodologia. O estudo não possuía um grupo de controle adequado, Zimbardo acumulou os papéis de pesquisador e superintendente da prisão, e existem evidências de que alguns participantes receberam orientações ou perceberam quais comportamentos eram esperados deles. Por isso, o experimento não deve ser tratado como prova definitiva de que qualquer pessoa se tornará abusiva ao receber poder. Suas limitações foram examinadas especialmente por Thibault Le Texier, que questionou a coleta de dados, a influência dos pesquisadores e a narrativa construída posteriormente sobre o estudo.
Essas críticas, contudo, não eliminam a reflexão mais ampla. Elas tornam a questão ainda mais interessante: talvez os participantes não tenham sido transformados apenas pelos papéis de “guarda” e “prisioneiro”, mas por um ambiente que sinalizava quais comportamentos seriam aceitos, esperados ou recompensados. A crueldade não nasceu somente do poder individual; foi favorecida por uma estrutura que ofereceu autoridade, criou uma identidade coletiva e demorou a estabelecer limites.
O experimento também revela algo importante sobre a responsabilidade de quem organiza ou supervisiona um sistema. Quando uma autoridade não interrompe o abuso, sua omissão pode ser interpretada como permissão. Algumas pessoas avançam não apenas porque possuem poder, mas porque percebem que ninguém pretende contê-las.
Esse fenômeno não pertence somente às grandes tragédias da história ou aos ambientes experimentais. Também pode aparecer:
- em um grupo que transforma uma pessoa em alvo de humilhações;
- em uma instituição que silencia uma denúncia para proteger sua imagem;
- em uma família que normaliza comportamentos abusivos;
- em ambientes digitais nos quais a agressividade é recompensada;
- no silêncio daqueles que sabem o que está acontecendo, mas preferem não se envolver.
O mal pode crescer sem precisar de pessoas declaradamente cruéis. Ele encontra espaço quando indivíduos deixam de pensar, quando grupos transformam a violência em norma e quando as autoridades que deveriam estabelecer limites escolhem permanecer em silêncio.
“O maior mal praticado é o mal cometido por aqueles que se recusam a ser pessoas.” — Hannah Arendt, Responsabilidade e Julgamento
O SER HUMANO É NATURALMENTE MAU?
Talvez não exista uma resposta simples. O ser humano possui capacidade para acolher, cooperar, proteger e oferecer a própria vida por alguém. Mas também possui capacidade para ferir, dominar, excluir e transformar a vulnerabilidade alheia em oportunidade.
Não somos apenas bons ou maus. Somos seres atravessados por possibilidades contraditórias. Algumas circunstâncias ampliam nossa generosidade; outras enfraquecem nossas barreiras morais. Anonimato, impunidade, medo, humilhação, obediência cega e desumanização podem facilitar condutas que, em outros contextos, talvez fossem contidas.
Isso não significa que as circunstâncias retirem toda liberdade. O ambiente influencia, pressiona e pode deformar, mas pessoas submetidas à mesma situação nem sempre fazem as mesmas escolhas.
- Algumas aderem à violência.
- Outras silenciam.
- Algumas resistem.
- Outras protegem aqueles que estão sendo atacados.
Talvez a pergunta mais fecunda não seja “o ser humano nasce bom ou mau?”, mas:
- O que desperta o melhor e o pior em cada pessoa?
- Que ambientes recompensam a indiferença?
- Que relações desenvolvem empatia e responsabilidade?
- Que pequenas concessões preparam alguém para ultrapassar limites maiores?
Possuir capacidade para o mal é diferente de estar condenado a praticá-lo. A bondade não é um título que conquistamos definitivamente. É uma direção que precisa ser renovada por escolhas.
“A linha que separa o bem do mal não passa entre Estados, classes ou partidos, mas atravessa cada coração humano.” — Aleksandr Soljenítsin, Arquipélago Gulag
O MAL DIANTE DA ESPIRITUALIDADE E DAS RELIGIÕES
As religiões oferecem explicações diferentes para a existência do mal, mas muitas convergem em um ponto: a transformação exige consciência, arrependimento e mudança de conduta.
- No cristianismo, o mal costuma ser relacionado ao pecado, ao afastamento de Deus e ao uso destrutivo do livre-arbítrio. Santo Agostinho não considerava o mal uma força autônoma equivalente ao bem. Para ele, o mal representava uma privação ou corrupção do bem, como se algo essencial tivesse perdido sua direção.
- Na tradição judaica, o retorno ao caminho correto não se limita a sentir culpa ou pedir desculpas. Pressupõe reconhecer a falta, interromper a conduta, reparar o dano possível e escolher de forma diferente diante de uma situação semelhante.
- No budismo, as ações nocivas são associadas à ignorância, ao apego e à aversão. Quem causa sofrimento também se mantém preso aos estados mentais que sustentam seus atos. A transformação requer lucidez sobre essas raízes internas.
- No espiritismo, a maldade pode ser compreendida como expressão de ignorância espiritual e imperfeição moral. Essa leitura pode ampliar a compreensão, mas não deve converter-se em justificativa. Reconhecer que alguém ainda precisa evoluir não obriga ninguém a permanecer exposto às suas agressões.
Em diferentes linguagens, essas tradições indicam que a transformação verdadeira não acontece apenas quando alguém diz “eu me arrependo”, mas quando passa a agir de outra maneira.
“Pelos seus frutos os conhecereis.” — Jesus Cristo, Evangelho de Mateus 7:16
TODO MAL MERECE O MESMO PERDÃO?
Nem todo dano possui a mesma origem. Por isso, nem toda experiência exige o mesmo caminho de elaboração.
- Um erro reconhecido e reparado é diferente de uma violência planejada.
- Uma palavra impensada é diferente de uma humilhação repetida.
- Uma falha ocasional não pode ser julgada da mesma forma que um padrão de crueldade.
Também precisamos separar conceitos que frequentemente são confundidos:
- perdoar é trabalhar interiormente para que a ofensa não continue governando nossa vida;
- compreender é reconhecer as causas e circunstâncias de uma ação;
- justificar é considerar aceitável o que aconteceu;
- reconciliar-se é reconstruir uma relação;
- confiar novamente é permitir que alguém recupere proximidade e acesso;
- responsabilizar é reconhecer que os atos produzem consequências.
E ainda mais:
- É possível compreender sem justificar.
- É possível perdoar sem voltar a confiar.
- É possível libertar-se do ressentimento sem restabelecer a convivência.
- E é possível reconhecer a humanidade de quem feriu sem permitir que essa pessoa ocupe novamente o mesmo lugar em nossa vida.
O perdão não deveria ser imposto a quem ainda está tentando sobreviver ao dano. Quando exigido antes que a violência termine ou antes que a dor seja reconhecida, pode transformar-se em mais uma forma de abandono. O perdão maduro não apaga a verdade nem remove os limites necessários.
“Sem sermos perdoados e libertados das consequências daquilo que fizemos, nossa capacidade de agir ficaria confinada a um único ato do qual jamais poderíamos nos recuperar.” — Hannah Arendt, A Condição Humana
COMO COMBATER O MAL SEM REPETI-LO
O mal causado por desconhecimento pode ser reduzido por informação, diálogo, cuidado e revisão de condutas. A maldade consciente exige respostas mais firmes: proteção, limites, interrupção do abuso, responsabilização e justiça.
Entretanto, combater o mal também traz um desafio. Quando o enfrentamento se transforma em prazer punitivo, humilhação ou vingança ilimitada, corremos o risco de reproduzir a mesma lógica que afirmamos combater. Podemos interromper uma ação destrutiva e, ainda assim, permitir que a raiva, o ódio e o desejo de ferir invadam nosso mundo interior.
Uma imagem presente na tradição cristã ajuda a compreender essa diferença. Em muitas representações da Imaculada Conceição e de Nossa Senhora das Graças, Maria aparece com o semblante tranquilo enquanto mantém sob os pés a serpente, símbolo do mal. Não existe descontrole em sua expressão, nem prazer diante da derrota do adversário. Existe presença, firmeza e serenidade. A serpente é contida, mas sua violência não invade o coração de quem a contém.
Essa imagem nos ensina que enfrentar o mal não exige vibrar na mesma frequência daquele que o pratica.
- Podemos interromper uma injustiça sem nos alimentarmos de ódio.
- Podemos estabelecer limites sem desejar a destruição do outro.
- Podemos denunciar, responsabilizar e afastar alguém sem permitir que seu comportamento determine aquilo em que nos transformaremos.
Isso não significa negar a indignação. A indignação pode ser uma resposta saudável diante da injustiça, pois mobiliza proteção e mudança. O risco começa quando deixamos de utilizá-la como força para uma ação consciente e passamos a transformá-la em identidade, ressentimento ou desejo permanente de vingança.
- Firmeza não é crueldade.
- Compaixão não é passividade.
- Estabelecer limites não significa odiar.
- Responsabilizar alguém não exige negar sua humanidade.
A justiça torna-se mais elevada quando protege a vítima sem transformar a violência em método.
No plano pessoal, enfrentar o mal significa observar nossas justificativas, reconhecer quando ferimos, reparar o que for possível e estabelecer limites quando somos feridos. No plano coletivo, significa construir ambientes em que o poder tenha limites, as denúncias sejam protegidas e ninguém possa utilizar a obediência como álibi moral.
Talvez a verdadeira vitória sobre o mal aconteça em duas dimensões: quando conseguimos impedir que ele continue sendo praticado e quando não permitimos que sua frequência permaneça vivendo dentro de nós.
“Quem combate monstros deve cuidar para não se transformar também em monstro. E, quando se olha longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de nós.” — Friedrich Nietzsche, Além do Bem e do Mal
SE NINGUÉM PUDESSE NOS VER
O Anel de Giges não revela apenas o que uma pessoa faria se pudesse tornar-se invisível. Ele revela aquilo que sustentava sua aparente bondade antes da invisibilidade. Se a conduta justa desaparece junto com as testemunhas, talvez não houvesse virtude, mas apenas adaptação.
Todos nós possuímos pequenos anéis. São os espaços nos quais nossa palavra vale mais, as relações em que o outro depende de nós, as informações que poderíamos utilizar em benefício próprio e as escolhas que dificilmente poderiam ser descobertas.
É nesses lugares que o caráter deixa de ser discurso e se transforma em decisão.
O mal que nos habita não precisa ser negado, temido ou romantizado. Precisa ser reconhecido para que possa ser contido e transformado. Enquanto acreditarmos que apenas monstros praticam a maldade, talvez não consigamos percebê-la quando ela surgir com aparência comum, uma justificativa razoável ou o nosso próprio rosto.
Se ninguém pudesse nos ver, continuaríamos sendo bons?
A resposta não está naquilo que publicamos, prometemos ou dizemos sobre nós mesmos. Ela aparece nas escolhas realizadas quando temos poder, quando o outro não consegue reagir e quando nenhuma testemunha parece estar olhando.
Porque a ética mais profunda não é aquela que funciona apenas sob vigilância. É aquela que permanece quando somente a nossa consciência pode nos ver.
“A escuridão não pode expulsar a escuridão; somente a luz pode fazer isso. O ódio não pode expulsar o ódio; somente o amor pode fazer isso.” — Martin Luther King Jr., Força para Amar
REFERÊNCIAS
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Prof. Dr. João Oliveira Psicólogo (CRP 05/32031) | ISEC – Instituto de Psicologia Ser e Crescer
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