Por que permanecemos em ilhas confortáveis quando, em algum lugar dentro de nós, ainda sabemos onde fica a nossa Ítaca?
Há mais de dois mil anos, uma narrativa atravessa gerações contando a longa tentativa de um homem para voltar para casa. Esse homem é Odisseu, um dos heróis gregos que participaram da Guerra de Troia. Terminada a guerra, ele queria retornar a Ítaca, a pequena ilha onde estavam seu reino, sua esposa Penélope e seu filho. A viagem, porém, transformou-se em uma sucessão de tempestades, perdas e encontros extraordinários.
Em determinado momento, depois de um naufrágio, Odisseu chega sozinho a uma ilha chamada Ogígia. Ali vivia Calipso, uma ninfa bela, poderosa, praticamente isolada do restante do mundo. Ela o acolheu.
E ele ficou. Durante sete anos.
É justamente aqui que uma história escrita há tantos séculos começa a falar, de maneira quase incômoda, sobre a nossa vida atual.
O HOMEM QUE OLHAVA PARA O MAR
Ogígia era um lugar paradisíaco. Havia beleza, alimento, abrigo e segurança. Calipso desejava Odisseu ao seu lado e chegou a oferecer algo extraordinário: se ele permanecesse com ela, poderia receber juventude e imortalidade. Seria possível viver para sempre naquele paraíso.
Apesar disso, Odisseu olhava para o mar e desejava voltar para casa.
Um homem diante de tudo aquilo que poderia fazê-lo permanecer e, ainda assim, sentindo que precisava partir.
- Quantas vezes alguma coisa semelhante acontece conosco?
- Existem períodos da vida em que aparentemente está tudo bem.
- O trabalho paga as contas.
- O relacionamento continua.
- A rotina funciona.
- Temos onde morar, o que comer, alguma sensação razoável de segurança.
Mesmo assim, em algum lugar dentro de nós, continuamos olhando para o mar.
Curiosamente, o nome Calipso está relacionado a uma antiga palavra grega associada à ideia de cobrir, esconder, ocultar. Na ilha de Calipso, Odisseu estava protegido. Estava também escondido do mundo. Durante aqueles anos, sua grande viagem ficou suspensa.
A pessoa não mudou. O que mudou foi o tempo que ela deixou de viver.
A PSICOLOGIA POR TRÁS DE PERMANECERMOS NA ILHA
Existe uma explicação psicológica bastante compreensível para esse fenômeno. Nosso cérebro trabalha constantemente tentando prever o que acontecerá. Situações conhecidas oferecem previsibilidade; uma mudança importante traz variáveis desconhecidas, e o desconhecido exige adaptação.
Por isso conseguimos permanecer durante muito tempo em situações apenas razoáveis.
Daniel Kahneman e Amos Tversky, ao desenvolverem a Teoria da Perspectiva, demonstraram que sentimos com muito mais intensidade a possibilidade de perder algo que já possuímos do que a possibilidade de conquistar algo novo.
É a chamada aversão à perda. William Samuelson e Richard Zeckhauser, em pesquisas posteriores sobre o chamado viés do status quo, mostraram que tendemos a preferir a manutenção da situação atual mesmo quando alternativas objetivamente melhores estão disponíveis, simplesmente porque mudar exige uma decisão ativa, e decidir custa energia psicológica.
- Quem pensa em mudar de profissão rapidamente imagina o salário que poderá perder.
- Quem pensa em terminar determinada situação imagina a segurança que deixará para trás.
- Quem pensa em começar um projeto imagina a possibilidade de fracassar.
A ilha conhecida parece segura diante de um oceano imprevisível.
Robert Kegan e Lisa Lahey, em seus estudos sobre o que chamaram de “imunidade à mudança”, descreveram como frequentemente carregamos compromissos ocultos que sabotam silenciosamente as próprias mudanças que dizemos desejar. Não é falta de vontade. É um sistema psicológico inteiro protegendo o conforto conhecido.
AS ILHAS QUE CONSTRUÍMOS
Poucas pessoas percebem claramente quando entraram em suspensão, porque costumamos imaginar que uma vida paralisada deveria ser necessariamente terrível. Só que algumas das situações que mais nos paralisam são razoavelmente confortáveis.
Pense em alguém há quinze anos em um trabalho que já perdeu completamente o sentido. Todos os anos essa pessoa pensa em fazer algo diferente. Pesquisa, conversa, imagina possibilidades. Depois chega o salário, aparecem as responsabilidades, passam alguns meses e tudo continua igual.
Outro exemplo é aquele relacionamento que existe há anos dentro da mesma repetição. As pessoas convivem, cumprem tarefas, resolvem problemas domésticos e mantêm a rotina. Em algum momento deixaram de perguntar para onde estão caminhando.
Há também quem viva esperando estar preparado.
- Quando tiver mais dinheiro, começa.
- Quando emagrecer, viaja.
- Quando os filhos crescerem, realiza aquele projeto.
- Quando se aposentar, aproveita a vida.
O problema aparece quando o “quando” se transforma em endereço.
O psicólogo canadense Timothy Pychyl,um dos principais pesquisadores sobre procrastinação, descreve esse comportamento como uma forma de regulação emocional de curto prazo: adiamos não porque somos preguiçosos, mas porque a tarefa evoca desconforto imediato, e o cérebro busca alívio agora, mesmo às custas do bem-estar futuro.
Nossa época, aliás, criou formas extremamente eficientes de permanecer em Ogígia. Passamos horas deslizando o dedo sobre uma tela, acompanhando a vida de centenas de pessoas, terminando o dia cansados, embora tenhamos avançado muito pouco na direção daquilo que consideramos realmente importante.
DESCANSO E SUSPENSÃO NÃO SÃO A MESMA COISA
Com o passar do tempo, um fenômeno silencioso aparece: começamos a construir explicações para justificar nossa permanência.
- “Agora não é uma boa hora.”
- “Preciso esperar mais um pouco.”
- “A situação está difícil para todo mundo.”
- “Depois eu vejo isso.”
Essas frases podem ser perfeitamente verdadeiras em determinados momentos. O risco surge quando repetimos a mesma explicação durante cinco, dez ou vinte anos.
O descanso nos prepara para voltar à vida. A suspensão transforma o adiamento em modo de vida.
Erich Fromm, em O Medo à Liberdade, argumentou que uma parcela significativa do sofrimento humano nasce exatamente dessa tensão: desejamos liberdade e, ao mesmo tempo, tememos o peso da responsabilidade que ela exige. É mais confortável permanecer sob a promessa de segurança de uma ilha do que assumir a autoria incerta da própria travessia.
QUAL É A SUA ÍTACA?
Na história de Odisseu, Ítaca era sua casa, o lugar para onde ele queria voltar depois da guerra. Para nós, Ítaca pode representar algo diferente:
- um projeto abandonado,
- uma profissão desejada,
- uma relação que precisa ser reconstruída,
- uma mudança de cidade,
- um livro nunca escrito,
- uma conversa adiada há anos.
Pode ser também algo mais simples:
voltar a cuidar do corpo, recuperar amizades, estabelecer limites ou finalmente reservar tempo para o que consideramos importante.
Cada pessoa possui sua própria Ítaca. E cada pessoa também pode ter sua Calipso, que pode assumir a forma do conforto, do medo, da rotina, da procrastinação, da necessidade de aprovação, da segurança financeira ou de uma antiga imagem que construímos sobre quem somos.
Em que área da minha vida estou esperando alguma coisa acontecer para finalmente começar a viver de outra maneira?
Vale observar a resposta com atenção. Talvez exista ali uma ilha.
CONSTRUIR A JANGADA
Quando finalmente recebe a possibilidade de deixar Ogígia, Odisseu precisa preparar sua embarcação para voltar ao mar. Essa imagem oferece uma metáfora útil:
grandes mudanças raramente começam grandes.
Albert Bandura, ao desenvolver sua teoria da autoeficácia, mostrou que a confiança em nossa capacidade de agir não nasce da motivação abstrata, mas de pequenas experiências concretas de domínio, uma ação bem-sucedida sustentando a próxima.
Às vezes, construir a jangada significa apenas fazer uma ligação, marcar uma consulta, atualizar um currículo, conversar seriamente com alguém, voltar a estudar, guardar determinada quantia por mês, escrever a primeira página, dizer sim, dizer não, tomar uma decisão que vem sendo adiada.
Qual é a menor ação concreta que prova que comecei a sair da ilha?
Observe a palavra concreta. Pensar não conta. Desejar também não. Planejar infinitamente pode se transformar em outra maneira sofisticada de permanecer parado.
Uma ação modifica alguma coisa no mundo.
TAREFA: O EXPERIMENTO DA JANGADA
Faça mentalmente um exercício desconfortável. Escolha uma área da sua vida em que você sabe, no fundo, que está em Ogígia, e não em movimento. Pode ser o trabalho, o corpo, um relacionamento, um projeto, uma decisão adiada.
Pergunte-se:
- há quanto tempo estou aqui?
- Que desculpa repito para justificar essa permanência?
- O que eu diria a alguém que amo se essa pessoa estivesse exatamente na minha situação? E, principalmente:
qual é a menor ação concreta, possível de ser feita ainda esta semana, que provaria que a jangada começou a ser construída?
Não escreva um plano de cinco anos. Escreva uma frase. Uma ligação. Uma data. Um primeiro passo pequeno o suficiente para não dar medo, e real o suficiente para não poder ser esquecido.
A VERDADEIRA TRAGÉDIA NÃO ESTAVA NA ILHA
Talvez a verdadeira tragédia de Odisseu não estivesse nos sete anos que passou em Ogígia. Estava na possibilidade de permanecer ali por mais sete. E depois outros sete. Até esquecer que um dia existiu uma Ítaca.
Viktor Frankl escreveu que, mesmo diante das situações mais limitadas, resta sempre uma última liberdade: a de escolher a própria atitude diante das circunstâncias. Construir a jangada não é negar o valor do abrigo que Ogígia ofereceu. Todos nós precisamos, em determinados momentos, parar, recuperar forças e permanecer algum tempo em nossas ilhas.
Só precisamos perceber quando o abrigo começa a se transformar em moradia permanente.
Porque existe algo silencioso acontecendo enquanto esperamos. O tempo continua passando.
Então, pense comigo: talvez de tempos em tempos seja importante olhar para a própria vida e perguntar, sem pressa, mas também sem mais adiamentos:
Qual é a minha Calipso? Onde está minha Ítaca?
E há quanto tempo estou olhando para o mar sem começar a construir minha jangada?
REFERÊNCIAS
BANDURA, Albert. Self-Efficacy: The Exercise of Control. New York: W. H. Freeman, 1997.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2008.
FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Editora 34, 2011.
KAHNEMAN, Daniel; TVERSKY, Amos. Prospect theory: an analysis of decision under risk. Econometrica, v. 47, n. 2, p. 263-291, 1979.
KEGAN, Robert; LAHEY, Lisa Laskow. Immunity to Change: How to Overcome It and Unlock the Potential in Yourself and Your Organization. Boston: Harvard Business Press, 2009.
PYCHYL, Timothy A. Solving the Procrastination Puzzle: A Concise Guide to Strategies for Change. New York: TarcherPerigee, 2013.
SAMUELSON, William; ZECKHAUSER, Richard. Status quo bias in decision making. Journal of Risk and Uncertainty, v. 1, n. 1, p. 7-59, 1988.
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