Sentir raiva faz parte da experiência humana. Essa emoção costuma surgir quando a pessoa percebe ameaça, injustiça, desrespeito, perda, frustração ou impedimento de um objetivo considerado importante. Em determinadas circunstâncias, a raiva exerce uma função adaptativa: aumenta a atenção, mobiliza energia, sinaliza que algum limite foi ultrapassado e pode motivar ações de proteção ou transformação.
Table Of Content
- O que é a raiva?
- Como a raiva começa?
- Sintomas e sinais de alerta
- Como perceber que você está vivendo em um ciclo de raiva
- Raiva é uma doença ou um mau comportamento?
- Como tratar e prevenir
- Protocolos de prevenção e controle da raiva
- 1. Reconheça o início da ativação
- 2. Faça uma pausa intencional
- 3. Reduza a ativação fisiológica
- 4. Nomeie a emoção e a necessidade
- 5. Questione os pensamentos automáticos
- 6. Evite alimentar a ruminação
- 7. Não utilize a agressividade como catarse
- 8. Retome o diálogo com comunicação assertiva
- 9. Fortaleça a prevenção cotidiana
- 10. Procure ajuda profissional quando necessário
- Conclusão
- Referências
A raiva, entretanto, não é uma reação puramente automática nem um simples produto da personalidade. Sua intensidade depende da interação entre o acontecimento, a interpretação que a pessoa faz dele, suas experiências anteriores, seu estado fisiológico e os recursos de autorregulação disponíveis naquele momento. Duas pessoas podem enfrentar a mesma situação e experimentar níveis muito diferentes de raiva porque atribuem significados distintos ao que aconteceu.
O problema começa quando a raiva deixa de ser uma resposta transitória e passa a organizar pensamentos, decisões e relacionamentos. Explosões frequentes, irritabilidade persistente, ruminação, hostilidade e dificuldade para controlar impulsos podem comprometer a saúde física, emocional, familiar e profissional. Aprender a regular a raiva não significa eliminá-la, mas reconhecer sua mensagem sem permitir que ela determine automaticamente o comportamento.
O que é a raiva?
A raiva é uma experiência emocional composta por elementos fisiológicos, cognitivos, subjetivos e comportamentais. Ela pode envolver sensação de calor, tensão corporal, aceleração cardíaca, pensamentos de injustiça, desejo de confrontação e tendência a aproximar-se daquilo que está sendo percebido como obstáculo. Por isso, embora seja frequentemente associada à agressividade, raiva e agressão não são sinônimos: a raiva é uma emoção; a agressão é um comportamento possível, mas não inevitável.
Do ponto de vista evolutivo, essa emoção pode preparar o organismo para defender recursos, proteger pessoas, reagir a ameaças ou corrigir situações percebidas como injustas. Em níveis moderados, pode favorecer assertividade, persistência e disposição para enfrentar problemas. A resposta torna-se desadaptativa quando sua intensidade é desproporcional, quando permanece ativa por muito tempo ou quando produz atitudes incompatíveis com os valores e objetivos da própria pessoa.
A ciência da regulação emocional mostra que controlar uma emoção não equivale a reprimi-la. Regular significa influenciar quando ela aparece, quanto tempo permanece, como é interpretada e de que maneira será expressa. Estratégias como reavaliação cognitiva, aceitação, nomeação emocional e mudança de foco podem alterar a experiência da raiva antes que ela se transforme em comportamento impulsivo (GROSS, 1998; POP et al., 2025).
“Qualquer pessoa pode ficar com raiva — isso é fácil. Mas ficar com raiva da pessoa certa, na medida certa, no momento certo, pelo motivo certo e da maneira certa não é fácil.” — Aristóteles, Ética a Nicômaco.
Como a raiva começa?
A raiva geralmente se inicia com uma avaliação, muitas vezes rápida, de que algo relevante foi ameaçado ou violado. Essa avaliação pode envolver pensamentos como “isso é injusto”, “estão me desrespeitando”, “estão tentando me controlar” ou “isso não poderia estar acontecendo”. Nem sempre essas interpretações aparecem como frases conscientes; algumas são construídas em frações de segundo a partir de experiências anteriores, crenças, memórias e expectativas.
No cérebro, a raiva não é produzida por uma única estrutura. Ela envolve circuitos distribuídos que incluem amígdala, hipotálamo, ínsula, córtex cingulado anterior, regiões orbitofrontais e outras áreas pré-frontais. Redes ligadas à detecção de relevância e ameaça identificam rapidamente o acontecimento, enquanto regiões pré-frontais participam da avaliação das consequências, do controle dos impulsos e da escolha da resposta. A dificuldade de regulação pode ocorrer quando a ativação emocional é intensa e os mecanismos de controle não conseguem modular adequadamente a reação (DAVIDSON; PUTNAM; LARSON, 2000).
Ao mesmo tempo, o sistema nervoso simpático aumenta a prontidão corporal. Há elevação da frequência cardíaca, mudança no padrão respiratório, aumento da tensão muscular e liberação de substâncias relacionadas à resposta ao estresse. Esse conjunto de reações prepara o organismo para agir, mas também pode estreitar a atenção: a pessoa passa a perceber principalmente os elementos que confirmam a ofensa, ignorando explicações alternativas.
O pensamento de Epicteto antecipa uma ideia central das abordagens cognitivas contemporâneas:
“As pessoas não são perturbadas pelas coisas, mas pelos julgamentos que fazem a respeito delas.” — Epicteto, Manual, capítulo 5.
Isso não significa que injustiças ou agressões sejam imaginárias. Significa que, entre o acontecimento e a resposta, existe um processo de interpretação que pode aumentar, manter ou reduzir a intensidade da emoção.
Sintomas e sinais de alerta
No corpo, a raiva pode provocar aceleração dos batimentos cardíacos, respiração curta, pressão no peito, tensão na mandíbula, enrijecimento dos ombros, calor no rosto, suor, tremores e desconforto gastrointestinal. Algumas pessoas percebem dor de cabeça ou sensação de pressão interna; outras sentem inquietação, necessidade de andar ou impulso de interromper bruscamente a interação.
No plano cognitivo, podem aparecer pensamentos absolutistas e acusatórios: “ele sempre faz isso”, “ninguém me respeita”, “preciso mostrar quem está certo” ou “isso é imperdoável”. A atenção fica seletivamente direcionada para a provocação, enquanto nuances, informações contraditórias e possíveis consequências da reação perdem espaço. Essa redução temporária da flexibilidade cognitiva favorece respostas precipitadas.
Comportamentalmente, os sinais incluem aumento do volume da voz, sarcasmo, interrupções, acusações, ameaças, gestos bruscos, agressividade verbal, destruição de objetos ou afastamento hostil. Há também manifestações menos visíveis, como silêncio punitivo, ressentimento, fantasias de vingança e repetição mental do conflito. A ausência de gritos não significa necessariamente que a raiva esteja sendo regulada de maneira saudável.
Episódios intensos de raiva produzem efeitos fisiológicos mensuráveis. Uma revisão sistemática encontrou aumento transitório do risco de eventos cardiovasculares nas duas horas posteriores a explosões de raiva, especialmente entre pessoas que já apresentavam maior vulnerabilidade cardiovascular. Isso não significa que todo episódio causará um problema cardíaco, mas demonstra que a raiva intensa também possui repercussões corporais relevantes (MOSTOFSKY; PENNER; MITTLEMAN, 2014).
“A raiva, se não for contida, frequentemente nos prejudica mais do que a ofensa que a provocou.” — Sêneca, Sobre a ira.
Como perceber que você está vivendo em um ciclo de raiva
Um ciclo de raiva costuma seguir uma sequência relativamente previsível: ocorre um gatilho, surge uma interpretação ameaçadora ou acusatória, o corpo entra em estado de ativação, aparece o impulso de atacar ou defender-se e, em seguida, acontece uma resposta. Depois vêm as consequências: culpa, justificativas, novos conflitos, afastamento ou ruminação. Essas consequências podem aumentar a tensão acumulada e deixar a pessoa mais vulnerável ao próximo episódio.
A ruminação raivosa é um dos principais mecanismos de manutenção desse ciclo. Ela ocorre quando a pessoa revisita mentalmente a ofensa, imagina o que deveria ter dito, tenta provar internamente que estava certa ou alimenta fantasias de revide. Em um experimento, Denson, Moulds e Grisham observaram que a ruminação manteve a experiência de raiva, enquanto a reavaliação cognitiva e a distração favoreceram sua redução (DENSON; MOULDS; GRISHAM, 2012).
Outro sinal é a generalização. A irritação deixa de se limitar a uma situação e começa a contaminar diferentes áreas da vida. Pequenos atrasos são interpretados como afrontas, observações neutras parecem críticas e contratempos cotidianos provocam reações intensas. Discussões tornam-se frequentes, o ambiente familiar permanece em alerta e colegas passam a evitar determinados assuntos.
O sono também influencia esse processo. Em um estudo experimental, participantes submetidos à restrição de sono apresentaram intensificação da raiva diante de estímulos frustrantes e menor adaptação emocional à repetição desses estímulos. Dormir mal não explica sozinho os comportamentos agressivos, mas reduz recursos cognitivos importantes para tolerar frustrações e modular reações (KRIZAN; HISLER, 2019).
Os principais sinais de um ciclo de raiva são:
- irritabilidade presente em grande parte dos dias;
- sensação de estar constantemente sendo provocado;
- reações desproporcionais a acontecimentos pequenos;
- dificuldade para encerrar mentalmente os conflitos;
- repetição das mesmas discussões;
- arrependimento frequente depois das explosões;
- prejuízos nos relacionamentos, no trabalho ou na saúde;
- necessidade crescente de elevar a intensidade da reação para sentir-se ouvido.
Raiva é uma doença ou um mau comportamento?
A raiva, isoladamente, não é uma doença. É uma emoção humana que pode e deve ocorrer em pessoas psicologicamente saudáveis. Também não precisa ser automaticamente interpretada como falha moral, falta de educação ou ausência de caráter. O comportamento adotado durante a raiva envolve responsabilidade, mas suas causas podem incluir aprendizagem familiar, traumas, estresse crônico, privação de sono, uso de substâncias, dificuldades de comunicação ou transtornos psicológicos.
A raiva pode aparecer como característica relevante em diferentes condições clínicas, incluindo transtornos relacionados a traumas, transtornos do humor, alterações do controle de impulsos, uso problemático de substâncias e alguns transtornos da personalidade. Nesses casos, ela deve ser compreendida dentro de um conjunto mais amplo de sintomas, duração, história de vida e prejuízos funcionais. A literatura descreve a raiva como um fenômeno transdiagnóstico, isto é, presente em diferentes quadros psicológicos, mas com funções e mecanismos que podem variar (FERNANDEZ; JOHNSON, 2016).
O transtorno explosivo intermitente, por exemplo, envolve explosões agressivas recorrentes, impulsivas e desproporcionais à provocação. Essas explosões produzem sofrimento ou prejuízos significativos e não são planejadas para obter alguma vantagem. Entretanto, receber esse diagnóstico exige avaliação clínica e exclusão de outras causas psicológicas, médicas ou relacionadas ao uso de substâncias. Ter perdido o controle em algumas ocasiões não é suficiente para estabelecer um transtorno.
Uma avaliação adequada considera quatro elementos fundamentais: frequência, intensidade, duração e prejuízo. Também investiga o que acontece antes, durante e depois dos episódios, quais pensamentos aparecem, como o corpo reage, quais consequências são produzidas e se existe risco para a própria pessoa ou para terceiros. A pergunta clínica não é apenas “quanto essa pessoa sente raiva?”, mas “como ela compreende, regula e expressa essa emoção?”.
Como tratar e prevenir
O tratamento da raiva começa pela compreensão de seus gatilhos e mecanismos de manutenção. O objetivo não é tornar a pessoa passiva diante de injustiças, mas ajudá-la a responder com proporcionalidade, clareza e domínio das consequências. Para isso, é necessário diferenciar o acontecimento objetivo das interpretações automáticas e reconhecer as necessidades que podem estar por trás da emoção, como proteção, respeito, autonomia ou reparação.
As intervenções cognitivo-comportamentais apresentam evidências consistentes no tratamento da raiva problemática. Elas podem incluir psicoeducação, automonitoramento, reestruturação cognitiva, treinamento de relaxamento, solução de problemas, exposição a situações provocadoras em contexto terapêutico, comunicação assertiva e prevenção de recaídas. Revisões de meta-análises indicam que os tratamentos psicológicos para a raiva apresentam, em geral, efeitos pelo menos moderados, embora os resultados relacionados à agressividade possam variar conforme a população e o contexto (LEE; DIGIUSEPPE, 2018).
Uma estratégia importante é a reavaliação cognitiva: examinar interpretações iniciais e construir explicações alternativas antes de agir. Isso não significa justificar comportamentos abusivos, mas verificar se a leitura da situação é completa. Estudos mostram que pessoas que utilizam a reavaliação com maior habilidade conseguem reduzir melhor emoções negativas, inclusive a raiva. A nomeação emocional — reconhecer e dizer “estou me sentindo desrespeitado e com raiva” — também pode favorecer maior participação de regiões pré-frontais e menor reatividade emocional (LIEBERMAN et al., 2007).
O acompanhamento psiquiátrico pode ser necessário quando a raiva está associada a transtornos específicos, alterações importantes do humor, impulsividade grave, dependência de substâncias ou risco de violência. Medicamentos não são indicados simplesmente porque alguém sente raiva; sua utilização depende do diagnóstico, das condições associadas e de avaliação médica individualizada.
Protocolos de prevenção e controle da raiva
O controle da raiva começa antes da explosão. Quanto mais cedo a pessoa identifica os sinais iniciais, maior é a possibilidade de intervir sem precisar travar uma disputa intensa contra o próprio impulso. Um protocolo eficaz deve atuar em diferentes níveis: corpo, atenção, interpretação, comportamento, comunicação e prevenção.
1. Reconheça o início da ativação
Observe quais são os primeiros sinais físicos: mandíbula tensa, rosto aquecido, respiração acelerada, mãos fechadas, pressão no peito ou necessidade de interromper o outro. Não espere chegar ao nível máximo da emoção para tentar controlá-la. Criar uma escala pessoal de zero a dez pode ajudar: entre zero e três, a pessoa ainda consegue conversar; entre quatro e seis, precisa desacelerar; acima de sete, pode ser necessário interromper temporariamente a interação.
2. Faça uma pausa intencional
Interromper uma discussão não deve ser utilizado como abandono ou punição. A pausa precisa ser comunicada: “Estou muito ativado para conversar de maneira adequada. Preciso de alguns minutos e retomarei esse assunto”. O compromisso de retornar é importante para que o afastamento não seja percebido como desprezo ou manipulação.
Sêneca sintetizou esse princípio há quase dois mil anos:
“O maior remédio para a ira é o adiamento.” — Sêneca, Sobre a ira, livro II, capítulo 29.
A pausa reduz a probabilidade de que o primeiro impulso seja transformado imediatamente em ação.
3. Reduza a ativação fisiológica
Respirar lentamente pode contribuir para o aumento da atividade parassimpática e para a redução da ativação corporal. Uma possibilidade é inspirar sem esforço, pelo nariz, e realizar uma expiração um pouco mais longa, mantendo o ritmo confortável por dois ou três minutos. Não é necessário prender a respiração nem realizar inspirações excessivamente profundas.
Uma revisão sistemática encontrou associações entre respiração lenta, variabilidade da frequência cardíaca, atividade parassimpática e indicadores relacionados ao controle emocional. A respiração não resolve o conflito, mas pode criar condições fisiológicas mais favoráveis para pensar e escolher a resposta (ZACCARO et al., 2018).
4. Nomeie a emoção e a necessidade
Em vez de dizer apenas “estou com raiva”, procure identificar a experiência com maior precisão: “estou frustrado”, “senti-me desconsiderado”, “estou com medo de perder o controle” ou “interpretei isso como injustiça”. Quanto mais específica for a identificação, maior será a possibilidade de escolher uma intervenção adequada.
Depois, pergunte: “O que esta emoção está tentando proteger?”. A resposta pode apontar para necessidades legítimas, como segurança, respeito, previsibilidade ou autonomia. A necessidade pode ser legítima mesmo quando a maneira inicial de expressá-la não é.
5. Questione os pensamentos automáticos
Utilize perguntas breves:
- O que aconteceu objetivamente?
- O que estou supondo sobre a intenção da outra pessoa?
- Existe alguma explicação alternativa?
- Minha reação está proporcional ao acontecimento?
- O que acontecerá se eu agir seguindo este impulso?
- Qual resposta representaria melhor meus valores?
A reavaliação não exige concluir que “não aconteceu nada”. Seu objetivo é reduzir certezas precipitadas e ampliar as opções de resposta.
6. Evite alimentar a ruminação
Repassar mentalmente a ofensa pode parecer uma tentativa de resolver o problema, mas frequentemente mantém o organismo em estado de confronto. Quando perceber esse processo, direcione a atenção para uma atividade concreta, registre os fatos por escrito ou estabeleça um horário específico para refletir sobre o conflito.
O registro escrito deve separar quatro elementos: acontecimento, interpretação, emoção e resposta desejada. Essa divisão reduz a fusão entre aquilo que aconteceu e aquilo que se concluiu sobre o acontecimento.
7. Não utilize a agressividade como catarse
Socos em objetos, gritos e outras formas de “descarregar” a raiva podem aumentar a ativação fisiológica e reforçar padrões agressivos. Uma meta-análise publicada em 2024 concluiu que atividades destinadas a reduzir a ativação — como respiração, relaxamento, meditação e práticas de atenção — tendem a ser mais eficazes do que atividades que aumentam a excitação corporal. A ideia de que é necessário “colocar toda a raiva para fora” não encontra sustentação consistente nas evidências (KJÆRVIK; BUSHMAN, 2024).
A atividade física continua sendo importante como hábito preventivo, pois contribui para a saúde, o sono e a regulação do estresse. O que deve ser evitado é utilizá-la, no auge da explosão, como ensaio mental de vingança ou agressão.
8. Retome o diálogo com comunicação assertiva
Depois que a ativação diminuir, descreva o fato sem acusações globais. Uma estrutura possível é:
“Quando aconteceu __________, eu me senti __________, porque interpretei ou necessitei __________. Gostaria que, a partir de agora, nós __________.”
Em vez de “você nunca me respeita”, pode-se dizer: “Quando fui interrompido três vezes durante a reunião, senti irritação e desconsideração. Gostaria de concluir meu raciocínio antes das respostas”. A assertividade preserva o limite sem transformar a conversa em ataque à identidade da outra pessoa.
9. Fortaleça a prevenção cotidiana
O controle emocional depende também das condições gerais do organismo. Sono insuficiente, estresse crônico, consumo excessivo de álcool, sobrecarga, conflitos acumulados e ausência de descanso reduzem a capacidade de tolerar frustrações. Sono adequado, alimentação regular, atividade física, lazer, organização da rotina e apoio social não eliminam a raiva, mas ampliam os recursos disponíveis para regulá-la.
10. Procure ajuda profissional quando necessário
A avaliação psicológica é indicada quando as explosões são frequentes, causam medo nas pessoas próximas, provocam danos materiais, comprometem o trabalho ou os relacionamentos ou geram sensação de perda de controle. Também é necessária quando há ameaças, agressões físicas, uso de armas, direção perigosa, automutilação ou pensamentos de ferir alguém.
Nessas situações, orientações genéricas de autocontrole são insuficientes. É necessário compreender o padrão clínico, estabelecer medidas de segurança, tratar condições associadas e desenvolver um plano terapêutico individualizado.
Conclusão
Controlar a raiva não significa deixar de sentir indignação, aceitar desrespeitos ou permanecer passivo diante de injustiças. Significa preservar a capacidade de escolher o comportamento mesmo quando o organismo está intensamente mobilizado. A emoção pode sinalizar que alguma mudança é necessária, mas não determina qual mudança deve ser realizada nem de que maneira.
O desenvolvimento da autorregulação depende de prática. Reconhecer sinais precoces, reduzir a ativação fisiológica, questionar interpretações, interromper a ruminação e comunicar limites são habilidades que podem ser aprendidas e fortalecidas. Quanto mais essas estratégias são praticadas em situações de menor intensidade, maior é a possibilidade de utilizá-las nos momentos mais difíceis.
A raiva saudável informa, mobiliza e protege. A raiva desregulada aprisiona a pessoa em reações que frequentemente produzem exatamente aquilo que ela desejava evitar: perda de respeito, ruptura de vínculos, culpa e isolamento. O verdadeiro controle não está em negar a emoção, mas em impedir que um estado passageiro tome decisões com consequências duradouras.
Referências
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DAVIDSON, Richard J.; PUTNAM, Katherine M.; LARSON, Christine L. Dysfunction in the neural circuitry of emotion regulation: a possible prelude to violence. Science, Washington, v. 289, n. 5479, p. 591-594, 2000. DOI: 10.1126/science.289.5479.591.
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