Quando uma mentira produz consequências verdadeiras
Uma informação não precisa ser verdadeira para produzir consequências reais. Basta que um número suficiente de pessoas acredite nela, reaja emocionalmente e transforme essa crença em comportamento. Uma falsidade pode influenciar reputações, decisões econômicas, conflitos sociais e escolhas políticas.
Cresci em uma vila de casas no interior do Rio de Janeiro observando como pequenos boatos destruíam famílias antes mesmo de qualquer checagem da verdade. No ecossistema digital, essa dinâmica ganha proporções continentais: um boato sem fundamento sobre o fechamento de bancos em meados dos anos 2000 fez com que milhares de pessoas corressem aos caixas eletrônicos e com certeza você se recorda da corrida aos supermercados para comprar: “papel higiênico”! Até hoje não entendi que tipo de situação iria se resolver com tanto papel.
Esse talvez seja um dos grandes paradoxos da comunicação: enquanto a verdade depende de evidências, a mentira pode sobreviver apenas de plausibilidade, repetição e emoção. E quanto maior a velocidade da comunicação, menor pode ser o tempo disponível para verificar antes de reagir.
“A falsidade voa, e a verdade vem mancando atrás dela.” — Jonathan Swift, The Examiner, 1710.
Os Protocolos dos Sábios de Sião: uma falsificação que atravessou gerações
Publicados inicialmente em 1903, os Protocolos dos Sábios de Sião apresentavam falsamente uma suposta conspiração judaica para dominar governos, economia e sociedade. O documento tornou-se uma das mais difundidas peças de propaganda antissemita da era moderna.
O impacto humano dessa mentira não se restringiu ao debate ideológico; ele foi medido em sangue e tragédia. Os Protocolos serviram de combustível direto para os pogroms no Império Russo, justificando o massacre sistemático de comunidades inteiras e deixando milhares de famílias destruídas. Décadas mais tarde, a farsa foi adotada pelo regime nazista como leitura obrigatória nas escolas alemãs, fornecendo o arcabouço moral deformado que pavimentou o caminho para o Holocausto e o extermínio de seis milhões de judeus.
A dor gerada por esse documento falso demonstra o perigo definitivo da desinformação: quando uma falsificação convence uma sociedade de que um grupo qualquer é uma ameaça existencial, a violência deixa de ser vista como crime e passa a ser celebrada como legítima defesa. O sofrimento decorrente dessa narrativa atravessou gerações, mostrando que papéis manipulados e discursos de ódio têm a capacidade concreta de ceifar vidas inocentes em escala industrial.
Em 1921, o The Times demonstrou que partes substanciais haviam sido copiadas de uma sátira política de Maurice Joly, publicada em 1864 e que sequer tratava dos judeus. A fraude foi revelada, mas a narrativa continuou circulando e sendo utilizada politicamente.
“Esta falsificação causou incalculável sofrimento aos judeus.” — Benjamin Segel, 1924.
Por que acreditamos no que é falso?
Nosso cérebro não analisa cada informação como um investigador diante de um processo. Crenças anteriores, familiaridade, identidade social, emoção e confiança na fonte interferem na avaliação daquilo que consideramos verdadeiro.
Durante a cobertura de uma eleição passada o vilão estava no grupo da família do WhatsApp. Ele (qualquer pessoa) distribuía Fake News com ar de manchete sensacionista em primeira mão. Famílias foram rasgadas pelo ódio, o almoço de domingo se transformou em debates raivosos alimentados por fragmentos de informações falsas criadas por irresponsáveis que não mediram as consequências. Sim, de fato, pessoas morreram por conta dessa onda e não podemos duvidar que irá acontecer de novo nos próximos dias deste ano de 2026.
A desinformação eficiente frequentemente não inventa uma realidade inteira. Ela combina elementos verdadeiros, interpretações distorcidas e conclusões emocionalmente atraentes. Quando uma narrativa confirma aquilo que já acreditamos, questioná-la exige esforço cognitivo adicional e o cérebro é, antes de mais nada, um grande poupador de recursos.
“Leia não para contradizer e refutar, nem para acreditar e aceitar como certo, mas para pesar e considerar.” — Francis Bacon, Of Studies.
Do panfleto ao algoritmo
Durante séculos, a propagação de uma mentira dependia de impressão, distribuição física, jornais, rádio ou televisão. A internet eliminou grande parte dessas barreiras. As redes sociais acrescentaram outro componente: algoritmos capazes de selecionar aquilo que receberá nossa atenção.
Na minha transição da leitura de jornais impressos para os feeds digitais, notei a sutil mudança do ambiente informativo: antes, o filtro era editorial; hoje, o filtro é a indignação pessoal. Quando você se detém por alguns segundos a mais em um determinado assunto ele será apresentado mais e mais vezes. Assim, mentiras ou verdades orquestradas por robôs manipulam tópicos globais em questão de minutos, transformando opiniões marginais em consenso aparente.
O que mudou, portanto, não foi a existência da mentira, mas sua velocidade, escala, acessibilidade e capacidade de segmentação. A desinformação deixou de depender exclusivamente de grandes estruturas de comunicação para alcançar multidões.
“O meio é a mensagem.” — Marshall McLuhan, Understanding Media, 1964.
São Tomé e o fim do “ver para crer”
A tradição popular transformou a atitude de São Tomé em símbolo da necessidade de evidência: primeiro ver, depois acreditar. No Evangelho de João, Tomé declara que não acreditará na ressurreição enquanto não vir as marcas e tocar as feridas de Jesus.
Até três décadas passadas a prova de validade suprema era o registro visual. Uma fotografia com data e hora selava qualquer disputa em uma conversa entre amigos. Confiávamos nos nossos olhos como a última barreira de verificação psicológica.
Durante séculos, a experiência visual carregou essa enorme força psicológica. Fotografias e, posteriormente, gravações e vídeos fortaleceram ainda mais essa percepção. Mas estamos em uma época na qual é possível ver perfeitamente nas telas algo que jamais aconteceu.
“Porque me viste, acreditaste. Bem-aventurados os que não viram e creram.” — João 20:29.
Deepfakes: quando a mentira ganha rosto e voz
A inteligência artificial generativa permite sintetizar rostos, imagens, vozes e vídeos com um grau de realismo cada vez mais difícil de distinguir de registros autênticos. Uma pessoa pode aparentemente pronunciar palavras que nunca disse, participar de uma situação que jamais ocorreu ou surgir em um contexto completamente fabricado.
Com tecnologias de deepfake, clonagem de voz e geração audiovisual, já não é necessário apenas alterar uma informação: tornou-se possível fabricar aquilo que parece ser a própria evidência do acontecimento.
O impacto psicológico dessa transformação é profundo porque a falsificação deixa de existir apenas no campo da narrativa e passa a adquirir aparência de testemunho. Fotografias, gravações e vídeos já funcionaram como importantes marcadores de realidade; agora, esses mesmos elementos também podem ser artificialmente produzidos.
A antiga pergunta “quem disse isso?” passa, portanto, a ser acompanhada por questões ainda mais inquietantes: “essa pessoa realmente disse isso?”, “essa imagem registra algo que de fato aconteceu?” e, em última instância, “como podemos saber se aquilo que estamos vendo corresponde à realidade?”.
“Liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro.” — George Orwell, 1984.
Vulnerabilidade informacional: inteligência não é imunidade
Ser escolarizado não significa estar protegido contra desinformação. Pessoas intelectualmente sofisticadas também podem interpretar informações segundo crenças anteriores, vínculos sociais e identidades ideológicas.
Trabalhei anos ao lado de acadêmicos com doutorado que caíram repetidamente em correntes grotescas do WhatsApp sobre saúde pública. O diploma não impediu a ingenuidade; pelo contrário, por vezes a sofisticação intelectual servia apenas para criar racionalizações mais complexas para defender mentiras absurdas.
O conceito mais adequado é alfabetização midiática e informacional: capacidade de identificar fontes, compreender contextos, avaliar evidências e utilizar criticamente tecnologias digitais. A UNESCO considera essas competências essenciais diante da desinformação e da inteligência artificial.
“Pense criticamente, clique com sabedoria.” — UNESCO, 2021.
Como nos preparar para um mundo de realidades fabricadas
A resposta não pode ser simplesmente desconfiar de tudo. Uma sociedade incapaz de acreditar em qualquer evidência torna-se tão vulnerável quanto aquela que acredita em qualquer informação.
Precisaremos combinar pensamento crítico, educação midiática, controle da reação emocional e tecnologias de autenticação. Padrões abertos como o C2PA (Coalizão para Proveniência e Autenticidade de Conteúdo) permitem incorporar aos conteúdos digitais credenciais criptograficamente verificáveis sobre sua origem e histórico de alterações, criando uma espécie de cadeia de procedência digital.
Antes de compartilhar algo extraordinário, uma nova disciplina será necessária: parar, identificar a fonte, procurar o original, verificar o contexto, comparar fontes independentes e somente então concluir.
“Não basta ter uma boa mente; o principal é usá-la bem.” — René Descartes, Discurso do Método, 1637.
Quando a verdade também precisa provar que é verdadeira
Os Protocolos dos Sábios de Sião mostraram que uma falsificação rudimentar pode sobreviver por gerações quando encontra reflexos em preconceitos, medos e interesses capazes de sustentá-la. A inteligência artificial não criou essa vulnerabilidade humana. Ela apenas colocou ferramentas extraordinariamente poderosas a seu serviço.
Se no século passado o desafio era encontrar a informação, hoje o desafio é filtrá-la da ruína digital. No século XX, uma falsificação precisava ser impressa, transportada e reproduzida. No século XXI, pode ser criada em minutos, receber rosto e voz e alcançar milhões de pessoas antes que qualquer instituição consiga verificá-la.
Talvez São Tomé se transforme, involuntariamente, em uma das grandes metáforas de nossa época. Durante muito tempo, ver parecia uma poderosa razão para crer. Agora teremos de aprender algo mais difícil: ver, analisar, contextualizar e verificar.
Porque estamos em uma época na qual a mentira pode parecer verdadeira — e, paradoxalmente, a verdade poderá precisar demonstrar que não é artificial.
“A verdade vos libertará.” — João 8:32.
Referências
BACON, Francis. The essays or counsels, civil and moral: Of Studies. Project Gutenberg.
C2PA – COALITION FOR CONTENT PROVENANCE AND AUTHENTICITY. Content Credentials: C2PA Technical Specification. Versão 2.4. 2026.
DESCARTES, René. Discurso do método. Leiden: Jan Maire, 1637.
FUKUYAMA, Francis. Trust: the social virtues and the creation of prosperity. New York: Free Press, 1995.
MCLUHAN, Marshall. Understanding media: the extensions of man. New York: McGraw-Hill, 1964.
ORWELL, George. 1984. London: Secker & Warburg, 1949.
ORWELL, George. The freedom of the press. The Orwell Foundation, 1945.
SANTA SÉ. Evangelium secundum Ioannem. Nova Vulgata Bibliorum Sacrorum Editio. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana. Jo 8,32; Jo 20,24-29.
SWIFT, Jonathan. The Examiner, n. 14. London, 9 nov. 1710.
UNESCO. Media and information literate citizens: think critically, click wisely! Paris: UNESCO, 2021.
UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Uma conspiração antissemita: Os Protocolos dos Sábios de Sião. Holocaust Encyclopedia. Washington, DC: USHMM.
WORLD ECONOMIC FORUM. Global Risks Report 2025. 20. ed. Geneva: World Economic Forum, 2025.
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