Quando uma criança conta que foi excluída pelos colegas, discutiu com os pais ou passou vergonha na escola, nossa tendência natural é prestar atenção principalmente ao acontecimento: quem fez o quê, quando aconteceu, como ela se sentiu e quais foram as consequências. Entretanto, existe uma segunda camada nessa conversa. Além daquilo que a pessoa conta, existe a maneira como ela organiza em palavras aquilo que aconteceu.
Essa diferença aparentemente pequena pode carregar informação psicológica relevante. Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Stanford e publicado em julho de 2026 na Nature Mental Health analisou entrevistas de 204 crianças e adolescentes entre 9 e 13 anos. No início do estudo, nenhum deles apresentava diagnóstico de transtorno mental. Os participantes falaram sobre experiências estressantes e foram posteriormente acompanhados por um período de quatro a seis anos.
Utilizando diferentes técnicas de processamento de linguagem natural, os pesquisadores investigaram se determinadas características presentes na fala poderiam antecipar o desenvolvimento posterior de sintomas e transtornos internalizantes, como ansiedade e depressão. Os resultados foram particularmente interessantes: características linguísticas das narrativas explicaram mais que o dobro da variância explicada pelos fatores de risco tradicionalmente avaliados por especialistas. Mais surpreendente ainda:
a forma da linguagem mostrou maior capacidade preditiva do que o conteúdo emocional explícito das histórias contadas.
Isso desloca nossa atenção de uma maneira importante. Talvez não seja suficiente escutar apenas aquilo que aconteceu com alguém. Pode ser igualmente relevante perceber como essa pessoa está aprendendo a contar para si mesma aquilo que aconteceu.
Esse resultado, entretanto, não significa que existam palavras proibidas ou um vocabulário que indique automaticamente sofrimento psicológico. Uma criança perfeitamente saudável pode dizer “eu nunca mais quero voltar naquela escola” depois de uma situação muito desagradável. Da mesma forma, expressões como “estou triste”, “estou com medo” ou “odeio isso” não constituem, isoladamente, sinais de adoecimento.
O que os pesquisadores identificaram foram padrões distribuídos pela linguagem: características gramaticais, estrutura das frases, semântica, categorias de palavras, autorreferência, complexidade narrativa e formas de expressão de certeza.
Em outras palavras, o que importa não é uma palavra específica, mas a
configuração formada por muitas escolhas linguísticas e sua recorrência ao longo do tempo.
Até mesmo palavras aparentemente pouco importantes, como pronomes, preposições e conjunções, ajudam a organizar relações entre acontecimentos, pessoas, causas, lugares e tempos. James Pennebaker e seus colaboradores estudam há décadas justamente como esses pequenos elementos da linguagem podem revelar aspectos dos processos psicológicos e sociais.
Isso não significa que uma preposição possa diagnosticar depressão ou que determinado pronome indique ansiedade. Significa apenas que, quando centenas ou milhares de escolhas linguísticas são observadas conjuntamente, algumas regularidades começam a aparecer. A inteligência artificial tornou possível analisar essas regularidades em uma escala que seria muito difícil alcançar exclusivamente pela escuta humana.
Uma palavra isolada diz pouco. Um gesto isolado também. Uma pausa isolada igualmente. Mas
padrões recorrentes, quando observados no contexto, podem começar a contar uma história psicológica importante.
Quando o acontecimento começa a se transformar em identidade
Uma das formas mais simples de compreender esse fenômeno é comparar duas frases: “Eu errei a prova” e “Eu sou burro”. As duas podem surgir depois exatamente do mesmo acontecimento, mas não representam psicologicamente a mesma operação.
Na primeira frase existe um evento delimitado. A pessoa realizou determinada atividade e obteve um resultado específico. Na segunda, esse resultado deixa de ser apenas um acontecimento e passa a definir a própria identidade.
O erro não é mais algo que ocorreu; transforma-se em uma suposta característica permanente daquele sujeito.
Esse deslocamento aparece frequentemente na vida cotidiana. “Ela não quis brincar comigo hoje” pode se transformar em “ninguém gosta de mim”. “Fiquei nervoso durante a apresentação” pode evoluir para “eu não sei falar em público”. “Ele criticou meu trabalho” pode se converter em “as pessoas nunca reconhecem o que eu faço”.
O processo é semelhante em todos esses casos. Primeiro existe um acontecimento particular. Depois, esse acontecimento produz uma conclusão mais ampla. Finalmente, a conclusão passa a funcionar como definição sobre si mesmo, sobre os outros ou sobre o mundo.
É nesse momento que a linguagem deixa de apenas descrever aquilo que ocorreu e começa também a organizar psicologicamente a experiência.
Algumas estruturas linguísticas merecem atenção porque reduzem progressivamente as possibilidades de interpretação. Expressões como “todo mundo faz isso comigo”, “vai ser assim para sempre”, “eu sou assim”, “não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer” ou “ela fez aquilo porque me odeia”apresentam diferentes formas de fechamento narrativo.
Em algumas, uma experiência específica é generalizada; em outras, uma circunstância temporária ganha caráter permanente; em outras ainda, uma hipótese sobre a intenção de outra pessoa passa a ser tratada como certeza.
Nenhuma dessas frases, isoladamente, estabelece qualquer diagnóstico. O que se torna relevante é a repetição do padrão. Quando essa forma de narrar aparece constantemente, experiências diferentes passam a confirmar sempre a mesma interpretação.
- Uma rejeição confirma que ninguém gosta da pessoa.
- Um fracasso confirma que ela é incapaz.
- Uma crítica confirma que nunca será valorizada.
- Uma discussão confirma que todos os relacionamentos inevitavelmente terminarão mal.
A narrativa começa, então, a funcionar menos como instrumento de compreensão e mais como mecanismo de confirmação das crenças anteriores.
O problema não é a emoção negativa, mas a rigidez da história
É importante perceber que uma narrativa psicologicamente rígida não é necessariamente aquela que contém emoções negativas. Uma pessoa pode dizer “eu fiquei profundamente triste porque meus amigos não me convidaram” e, apesar da intensidade emocional, ainda estar descrevendo uma situação delimitada. Existe tristeza, mas também existem contexto, pessoas, tempo e acontecimento.
Compare isso com “ninguém nunca quer ficar comigo”. A segunda frase pode conter menos palavras explicitamente emocionais, mas produz uma conclusão muito mais ampla. A situação deixa de ser um episódio e começa a funcionar como prova de uma teoria sobre a própria existência.
O mesmo ocorre quando “estou com medo da prova de amanhã” se transforma em “eu nunca consigo fazer nada quando fico nervoso”. Na primeira formulação, o medo está localizado em uma circunstância específica. Na segunda, surge uma conclusão generalizada sobre capacidade, identidade e futuro.
Por isso, uma pergunta particularmente interessante para quem escuta talvez não seja apenas quanto sofrimento existe naquela fala, mas
quanto espaço aquela narrativa ainda permite para outras possibilidades de interpretação.
A autorreferência também pode fornecer algumas pistas, desde que seja analisada com cuidado. Pesquisas com adultos encontraram associações entre maior utilização de pronomes de primeira pessoa do singular e sintomas depressivos. Uma meta-análise conduzida por Edwards e Holtzmanidentificou uma associação pequena, porém consistente, entre depressão e maior uso da primeira pessoa do singular.
Outros estudos também relacionaram determinadas formas de autorreferência, especialmente quando combinadas a conteúdos negativos, a sintomas de ansiedade, depressão e ruminação.
Isso não significa, naturalmente, que alguém que utilize frequentemente a palavra “eu” esteja deprimido. Um escritor produzindo uma autobiografia, um paciente relatando sua história ou um palestrante descrevendo a própria trajetória utilizará inevitavelmente muitas referências a si mesmo. O significado psicológico surge da combinação entre frequência, contexto, conteúdo, estrutura narrativa e funcionamento geral da pessoa.
Também seria um erro imaginar que apenas a interpretação importa e que os acontecimentos reais poderiam ser secundarizados. No estudo com crianças e adolescentes, narrativas relacionadas a violência física e exclusão social apareceram associadas a maior risco futuro, enquanto referências a atividades estruturadas, rotinas, hobbies e acesso a cuidados de saúde apareceram relacionadas a padrões mais protetivos.
A saúde psicológica, portanto, não depende apenas daquilo que aconteceu nem exclusivamente da forma como aquilo foi interpretado. Ela emerge de uma interação complexa entre experiências, ambiente, vínculos, características individuais e a maneira pela qual essas experiências são progressivamente organizadas mentalmente.
Por essa razão, dizer a uma criança que sofreu uma humilhação que “o problema não é o que fizeram com você, mas como você está pensando” seria uma distorção tão grande quanto ignorar completamente a maneira como ela está interpretando o episódio. Se houve violência, rejeição, exclusão ou humilhação, o acontecimento precisa ser reconhecido.
Reorganizar uma narrativa nunca deveria significar negar aquilo que aconteceu. Significa, antes, evitar que uma experiência dolorosa adquira sobre a identidade um poder maior do que precisa ter.
Como ajudar sem ensinar uma “maneira correta” de falar
Imagine uma criança dizendo: “Ninguém gosta de mim na escola”. Uma resposta adulta bastante comum seria dizer imediatamente: “Claro que gostam. Isso não é verdade”. Embora bem-intencionada, essa reação pode interromper justamente o processo que seria mais importante: compreender como a criança chegou àquela conclusão.
Uma alternativa seria perguntar: “O que aconteceu hoje para você sentir isso?”. A criança poderia responder que alguns colegas estavam brincando e não a chamaram. A conversa poderia continuar investigando se foram todos os colegas ou apenas alguns e se aquilo acontecia constantemente ou havia ocorrido naquele dia.
A mudança parece pequena, mas psicologicamente é muito significativa. Em vez de tentar convencer a criança a pensar positivamente, ajudamos a transformar uma afirmação global — “ninguém gosta de mim” — em uma descrição mais contextualizada: “Hoje três colegas estavam brincando e não me chamaram, e isso me deixou muito triste”.
O sofrimento continua sendo reconhecido. A tristeza não é negada nem reduzida. O que muda é a arquitetura da história. Agora existem pessoas específicas, um momento delimitado, um acontecimento concreto e uma reação emocional compreensível. A identidade da criança deixa de funcionar como explicação automática para tudo aquilo que aconteceu.
Esse mesmo princípio pode ser aplicado em muitas situações.
- Quando alguém diz “eu nunca consigo”, podemos investigar se realmente nunca conseguiu ou se não conseguiu daquela vez.
- Quando afirma “todo mundo me rejeita”,podemos descobrir quem especificamente esteve envolvido.
- Quando diz “eu sou péssimo nisso”, podemos perguntar o que exatamente ainda não consegue realizar da maneira desejada.
- Quando afirma “não havia nada que eu pudesse fazer”, podemos explorar quais alternativas estavam ou não perceptíveis naquele momento.
Também é possível distinguir fatos de interpretações. Quando alguém diz “ele fez aquilo porque não gosta de mim”, uma pergunta simples pode ajudar a separar aquilo que efetivamente sabemos daquilo que estamos concluindo.
Esse tipo de intervenção não serve para desmentir a pessoa. Serve para devolver complexidade à narrativa.
A linguagem deixa de funcionar como sentença definitiva e começa a funcionar como hipótese examinável. E uma das características mais importantes de uma narrativa psicologicamente flexível talvez seja justamente essa: ela consegue receber novas informações sem precisar destruir completamente a história anterior.
A mesma lógica pode aparecer na vida adulta
O estudo de Stanford foi conduzido especificamente com crianças e adolescentes, e suas conclusões não podem ser automaticamente transferidas para adultos. Entretanto, a relação entre linguagem e funcionamento psicológico na vida adulta está longe de ser uma ideia recente.
Há décadas existem pesquisas examinando autorreferência, ruminação, estilo linguístico, depressão, ansiedade e diferentes formas de organização da experiência por meio da linguagem. As ferramentas atuais de análise computacional apenas ampliaram muito a possibilidade de detectar padrões que anteriormente dependiam sobretudo da percepção clínica, da análise de discurso ou da observação longitudinal.
Na vida cotidiana é relativamente fácil reconhecer expressões como:
- “minha vida sempre foi difícil”,
- “não posso confiar em ninguém”,
- “tudo acaba sobrando para mim”,
- “eu estrago tudo”,
- “depois de certa idade ninguém muda”,
- “relacionamento sempre termina do mesmo jeito” ou
- “eu simplesmente sou ansioso”.
Nenhuma dessas afirmações é suficiente para estabelecer um diagnóstico. Entretanto, quando uma mesma estrutura interpretativa começa a explicar acontecimentos muito diferentes, ela pode revelar algo importante. A pessoa talvez não esteja apenas relatando experiências específicas; pode estar utilizando um modelo relativamente estável para interpretar repetidamente aquilo que vive.
Nesse momento, escutar a linguagem ajuda a compreender não apenas o que aquela pessoa pensa, mas também como ela organiza significado.
Existe ainda uma diferença fundamental entre flexibilidade psicológica e simples pensamento positivo. Se alguém diz “não consigo”, substituí-lo automaticamente por “eu consigo tudo”não necessariamente melhora a narrativa.
Continuamos diante de uma afirmação absoluta; apenas alteramos sua direção.
Uma formulação mais flexível poderia ser: “Ainda não consegui fazer isso da maneira que gostaria, mas posso compreender o que está dificultando e experimentar outras estratégias”. Essa frase não ignora a dificuldade e também não promete sucesso. O que faz é delimitar o problema, preservar a identidade, retirar o caráter de permanência e reintroduzir aprendizagem e agência.
É exatamente aí que o trabalho com linguagem se torna interessante. Não precisamos substituir histórias negativas por narrativas artificialmente otimistas.
Precisamos favorecer histórias mais precisas, contextualizadas e capazes de permanecer abertas à transformação.
Talvez a principal tecnologia ainda seja saber escutar
Existe um risco quando pesquisas como essa chegam ao público geral. Pais podem começar a observar cada palavra dos filhos como se estivessem diante de um teste psicológico. Professores podem tentar identificar alunos “de risco” pela maneira como falam. Aplicativos podem prometer diagnosticar depressão ou ansiedade a partir de alguns minutos de voz.
Nada disso decorre automaticamente das evidências existentes.
Os próprios pesquisadores apresentam a análise computacional da linguagem como uma possível ferramenta futura de identificação de risco e prevenção, e não como substituta de uma avaliação clínica. O estudo foi desenvolvido em condições específicas, utilizando entrevistas estruturadas e acompanhamento longitudinal.
Além disso, qualquer utilização de inteligência artificial para inferir características psicológicas exige cuidados metodológicos importantes, especialmente quando crianças estão envolvidas.
Talvez, portanto, a aplicação imediata mais interessante dessa pesquisa não seja transformar cada conversa em um instrumento de rastreamento. Pode ser algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundo: aprender a escutar melhor.
- Quando alguém diz “eu fracassei”, existe um acontecimento.
- Quando diz “eu sou um fracasso”, começa a surgir uma identidade.
- Quando diz “isso aconteceu comigo”, existe uma experiência.
- Quando diz “isso sempre acontece comigo porque minha vida é assim”, começa a aparecer uma teoria sobre a própria existência.
A Psicologia trabalha há muito tempo justamente nesse espaço entre acontecimento, interpretação, significado e identidade. O que as novas ferramentas de inteligência artificial acrescentam é a possibilidade de observar padrões linguísticos em enormes quantidades de informação, identificando regularidades que poderiam passar despercebidas na observação individual.
Mas a tecnologia talvez esteja apenas tornando mensurável algo que bons ouvintes já percebiam intuitivamente:
as pessoas não apenas contam histórias sobre a própria vida; em alguma medida, aprendem também a viver dentro das histórias que contam.
Por isso, ajudar alguém a construir uma narrativa mais contextualizada não significa negar a dor. Significa impedir que um episódio se transforme em destino, que uma rejeição se transforme em identidade, que um erro se transforme em incapacidade ou que um período difícil se transforme em definição permanente da própria existência.
Talvez palavras isoladas não adoeçam ninguém. Mas formas rígidas, recorrentes e absolutas de organizar linguisticamente a experiência podem revelar quando uma história começa a se fechar sobre a própria pessoa.
E uma das possibilidades mais poderosas da escuta psicológica talvez seja justamente ajudar essa história a continuar aberta o suficiente para que novas experiências, interpretações e possibilidades ainda possam entrar.
Aquilo que aconteceu faz parte da história de uma pessoa. Não precisa se transformar na definição de quem ela é.
Referências
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Prof. Dr. João Oliveira
Psicólogo (CRP 05/32031) | ISEC – Instituto de Psicologia Ser e Crescer
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Profa. Dra. Beatriz Acampora
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Mais um texto interessatíssimo, como sempre!
Muito obrigado!